Estórias de Meninas – As Férias da Naties

naties

Decorria o final da década de cinquenta.

Uma jovem de dezassete anos, residente numa pequena povoação vizinha, situada no interior, vinha passar as férias de verão à minha terra, o maior período das suas frequentes visitas ao longo do ano.

Ficava na casa de um casal amigo, ela afilhada do seu pai, onde havia uma menina, que não tratava a jovem pelo seu nome, mas por um terno e perene: “Minha menina!”

A Naites, filha única, encontrou nos pais e irmãos destes seus amigos, particularmente nos dela, em que eram muitos, uma família com raparigas e rapazes amigos, da sua idade ou pouco mais novos ou pouco mais velhos com quem interagia, recebendo também todo o carinho dos seus ascendentes.

Dias felizes, uma interminável festa, era a vida de que a Naties desfrutava, ela que, já naquela época se vestia arrojadamente com um calção turquesa, com uma blusa estampada, a condizer, e cobria sensualmente o cabelo com um lenço, olhando para o mundo sob os seus óculos escuros, pousando para a máquina fotográfica da sua amiga na Praia da Gralheira, situada a poucos metros da sua casa de férias, na qual, apesar de rochosa, também usufruía alegremente de banhos de sol e de mar com os amigos e a “Minha menina”, os quais atingiam o seu ponto alto na arenosa praia aos pés do castelo, principalmente no dia do seu aniversário, o do banho de 29 animado com diversas e divertidas tradições.

Por detrás da modernidade que a Naties manifestava, claramente “à frente”, sobretudo, considerando o seu habitat e o meio social em que se inseria à beira-mar na localidade turística, repleta de veraneantes, escondia-se uma menina tímida, não dada a conversa com desconhecidos, nem exibições, nem busca incansável de um namorado, saciada simples e corajosamente com a imagem que criava de si própria, e preservava.

Anos depois, a Naties entregou o seu coração a um lindos olhos azuis, casou, foi mãe, continuou alegre, feliz, diferente!

E quando a vida desprendeu da sua firme e carinhosa mão a do seu sorridente e feliz esposo, que tudo preparara cuidadosa e amorosamente, antes da sua despedida, trazendo-a de regresso à saudosa terra da sua juventude, carregada de memórias, mas como residente, desejando-lhe de coração umas boas férias grandes, para que ela já estivesse no aconchego do seu cantinho, a dois passos do lar do fruto do seu amor.

A Naties esforçava-se todos os dias para honrar a promessa que fizera ao marido: cuidar-se sempre, andar bonita, pintar as unhas, preservar a sua encantadora juventude, viver!…

Lutando com a dor da terrível solidão pela ausência permanente do seu amado, dividia-se entre os carinhosos préstimos à família, que a apoiava sempre, predispusera-se a ensinar as senhoras do lar a costurar, lia para todos os idosos, fazia companhia aos amigos doentes e/ou necessitados, se bem que isolando-se dos que haviam feito parte da sua vida, também frequentava a universidade sénior, onde integrava o grupo de teatro, tornara-se pintora, distinguindo-se na turma que frequentava.

Mas…

A Naties, deixando-se abater pela tristeza, adoeceu – vencerá, e regressará à vida, que sempre tornou mais bela e mais rica, confio!

Nota: Este texto não é uma despedida, nem surgiu agora na sequência de factos recentes; foi adiado pelas circunstâncias do dia-a-dia, se bem que no seu último aniversário a Naties tivesse autorizado a publicação desta foto emoldurada com flores da sua vida, com um doce e jovial sorriso da.. “Minha menina!”

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