Estórias de Meninos – Os Cachimbos de Canas-da-Índia do Framar

Mar Nosso, 2016

Manhã morna de finais de agosto!

Na praia, as gaivotas despediam-se da areia e dispersavam-se preguiçosamente, umas seguindo os raios solares, outras procurando agarrar a transparência das nuvens nas suas brincadeiras com a ligeira brisa, metamorfoseando-se.

O Framar, que encontrara uma amiga no seu percurso matinal numa das maravilhosas praias da sua terra, começou a desfolhar as deliciosas memórias de outros tempos desenhadas com coloridos retalhos de histórias das que as idosas vizinhas lhe contavam repetidamente, e daquelas em que os felizes infantes da sua aldeia piscatória contemplada pelo fluxo de turistas que vinham “a banhos”, onde também havia fábricas de cortiça e de conservas de peixe, eram protagonistas e tudo construíam pelas hábeis mãos da sua imaginação, proporcionando-lhes, por exemplo, o prazer de jogos com as fantásticas bolas feitas de bexigas de porco.

A sua interlocutora musicou a conversa com o saudoso eco dos concertos de gaitas feitas das finas canas-da-Índia.

O Framar aplaudiu, fez uma breve paragem, sorriu e recordou com saudoso entusiasmo:

– “Atão” e os cachimbos? Com a cana e na ponta a “chaminé” feita com as folhas onde a malta punha milho? Aquilo é que era! Até ficava tudo amarelo!

– Nunca vi, nem ouvi falar sobre essa criação de meninos. Mas conheci e fiz muitas colheres para as bonecas com cascas de lapa e cabos de canas-da-Índia secas, limpas e cortadas onde e o meu paizinho fazia um pequeno golpe para poder fixá-los – contou a amiga, surpreendendo-o.

E as canas-da-Índia ainda voaram nas estruturas dos papagaios-de-papel, levaram os amigos aos bancos de escola estofados de sonhos com aventuras e gemidos de reguadas, que cá fora não lhes roubaram as gargalhadas, percorreram os corredores da Casa dos Pescadores onde se viram ao espelho, e nas imagens avistaram as crianças na crehe e o parque infantil – uma inovação para a época -, ouviram choros de recém-nascidos, viram a chefe da secretaria e os seus colaboradores, as meninas da costura, as da escola, e também os meninos, em turmas separadas, e os professores, os homens idosos, do lar, muito bem vestidos, passeando-se serenamente pelo jardim de torneiras douradas e no amplo terraço, debruçados sobre a baía, e ainda poisaram em África, e voltaram…

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