A Menina Azul – Memórias de Maresia…

A Menina Azul

Era uma praia!

Enterrei os pés na sua areia fofa!

Parei e contemplei o mar, reconhecendo a voz das ondas, que embalaram os encantos da minha infância e as fantasias da minha juventude!

Olhei à volta e senti o calor das recordações, saltitando na minha memória no vazio dos toldos às riscas e das barracas do mesmo tom, e algures uma ou outra amarela, e as reais passadeiras de madeira…

Havia muitas crianças, mas… não havia bolinhos nem castelos na areia…

Também não encontrei ninguém vestido de croquete com sorriso rasgado, divertido, ou zangado!

Faltavam os aromas dos restaurantes, e não senti crescer água na boca a olhar para a bolachinha americana antes da primeira dentadinha estaladiça!

Mas…

O mar ainda enche o meu peito do gostoso sabor a maresia, a água continua transparente e persistentemente gelada, mostrando a dança dos cardumes, desenhada de figuras geométricas irregulares com o brincalhão sorriso do sol, salpicada de bagos dourados carregados de memórias e de imaginação, renascendo vivências, recriando meninos correndo atrás de ágeis bolas, e meninas a equilibrar discos…

As gaivotas ziguezagueiam e param os seus voos; as mais vaidosas flutuam como cisnes e patinhos feios, olhando à volta, procurando rostos pueris e rubros, da flor da idade, para apresentá-los à deusa da maresia!

Linda continua a melodia da biquinha com olhos de menina, sonhando beijar os pés areados com aguinha doce, fresquinha!

O relógio da torre da igreja soa as badaladas, trazendo consigo as imagens do ardor apressado da juventude em cada degrau polido das escadinhas confidentes de secretos desejos, na solidão despida de árvores com histórias guardadas nos troncos rugosos, e suspiros de saudade ecoando no infinito!

Sinto a falta: da algazarra das crianças brincando umas com as outras, fugindo dos pais e da mansidão do temeroso mar; dos gritinhos das meninas friorentas, excitando os rapazes, e as suas risadas devoradoras, os seus olhares trocistas e as suas orgulhosas conquistas!

Sinto as fofas massagens da areia nos meus pés, e afundo-os nos tapetes molhados das mãos de tule das carinhosas ondas, buscando as pegadas escaldantes do verão!

Sinto o olhar atento do pequeno pescador à volta das pedras, e o vaivém das suas mãos atravessando as águas bailarinas com coroas de princesa!

Sinto o primeiro arrepio da água transparente, deleitando-me com o primeiro mergulho, e dizendo:
– Está boa!

Sinto a alegria do pesado sulcar das traineiras vindo para a terra com véus de gaivotas cantantes, anunciando a pescaria…

Respiro fundo, bebo o cheiro do mar com um perene sorriso de infanta misturado de sonhos dos anos verdes, e guardo-o numa conchinha aqui no peito, um cálice a transbordar de alegria brilhando no meu olhar!

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