As Brincadeiras da Nita e do Nito – A Camarinha-Perolazinha e o Caroço-Belo Moço

A Janela da Muralha

A Nita estava meio amuada, sentada no frio degrau do castelo, suspirando, porque o Nito nunca mais chegava. Já tinha contado os barcos azuis e brancos baloiçando na baía, os bonés dos homens que estavam a conversar junto aos canhões, as canas de pesca espalhadas pela praia, e ia seguindo os passos do professor José Manuel, na esperança que ele içasse a linha e apanhasse um peixe…

E… o Nito que não aparecia!

Quando o amigo transpôs a porta do castelo, a Nita apertou os lábios para o seu satisfeito sorriso não se escapar, e logo que ele se aproximou, adiantou:

Nita – Bom Dia, alguém que não sei se existe!

Nito – Desculpe, a menina está a falar comigo?

Nita – Desculpe, o menino vê aqui mais alguém?

Nito – Pois! Mas… “Eu penso, logo existo”, e estou aqui! A menina não estaria a pensar noutra pessoa?

Nita – Não, Sr., menino! Cogitava e falava com esta pessoa, a sua, que, se fosse o Pessoa teria o gosto pela poesia e pela heteronomia, tudo na base da criação escrita, e… pensaria o mesmo sobre como expressar-se nas cartas de amor, “coisas de outros tempos”, falando à moda da minha terra onde tudo é fresco como o vento norte, e onde a luz do farol, que avisto da minha janela, passa com a manita por tudo o que a sua “vida” alcança!

Nito – Estou pasmo! E… a menina, que parece amiga de tal Pessoa, quem é?

Nita – O menino dá-me licença, antes que lhe responda?

Nito – Licença, menina? Faça favor!

Nita – Muito obrigada! O menino desculpe, mas… como ultimamente tenho sofrido de rouquidã, e só ontem é que a voz começou a limpar, tal e qual como o tempo…

Nito – Muito interessante, menina!

Nita – Ah, sim?!… Nunca ninguém me chamou interessante, mas… muito obrigada pela gentileza, menino! Como eu ia dizendo, a voz sai mais normalizada, mas troca as letras.

Nito – Não entendo, menina! Desculpe!

Nita – O menino já vai entender! Por exemplo, como sucedeu há pouco, saiu-me “vida” em vez de vista, e… isto pode mudar… a visão do farol.

Nito – Eu entendi o sentido, menina! Não se preocupe!

Nita – Muito bem! Ora vê como, afinal, o menino existe?!… Claro, porque pensa! Diz-lhe aqui a …

Nito – A… Qual é a sua graça, menina?

Nita – A Graça é a minha amiga; a Graça das Buganvílias; fez anos há poucos dias, mas… isso não interessa. Dizia-lhe eu, aqui presente, a… a Nela Camarinha, mais conhecida pela perolazinha!

Nito – Muito gosto, menina Nela Camarinha Perolazinha! É da família das camarinhas que namoram o mar até de olhos fechados? Eu sou o Nelo Caroço, mais conhecido pelo belo moço!

Nita – Muito gosto! Sou parente, sim, menino belo moço! Porque não vai admirar as camarinhas tão branquinhas, redondinhas, e prová-las?!… Olhe que algumas são azedinhas!

Nito – Gostaria muito, menina Camarinha, mas a vida não me deixa!

Nita – Como é que a vida não deixa algo a alguém que existe, menino Caroço belo moço?!… Há tantas camarinhas na Costa de Norte! E… a Alba, uma gaivota amiga, disse-me que elas choram, choram, choram, à noitinha! De manhã estão… encharcadinhas! Até a minha amiga fica com mais penas, mas no coração, com pena, claro!

Nito – Oh! Não me diga, menina Nela Camarinha?!… Coitadinhas das camarinhas-perolazinhas, suas parentinhas.

Nita – Coitadinhas, menino Nelo Caroço?!…

Nito – Sim, coitadinhas, menina Camarinha!

Nita – Mas, coitadinhas é uma palavra do coração, portanto o Nelo belo moço tem de ser de alguém: “Sinto, logo existo!”

Nito – E… sinto, Nela Camarinha! Mas, porquê tal desdita?

Nita – Cogitando… Nelo Caroço… quem sente com o coração também existe! Porque chama desdita ao: “Sinto, logo existo!” Desdita teria sido se o Gama tivesse levado umas ditas mouras encantadas pelos mares fora!

Nito – Ohhh! Não as levou??!… Li algures um episódio… Tenho de consultar a História.

Nita – Tem boas relações com a História, Nelo bom moço?

Nito – Sim! Leio, releio, comunico!

Nita – Ah! Então, é o: “Comunico, logo existo!”

Nito – Vou comunicando! E queria comunicar mais, mas são só sonhos, porque a vida não deixa!

Nita – A vida só não deixa a “alguém que não existe!” Reza a história popular que o Vasquinho, antes de partir para a Índia, pediu à Fada das Percebeiras para encantar as restantes mouritas, e deixá-las com as guardiãs da costa.

Nito – Oh! E… as mouritas ficaram encantadas em camarinhas tão redondinhas, tão branquinhas, tão gostosinhas?

Nita – Ó menino belo moço, está a revelar-se muito espertinho e… sensível!

Nito – E… sou espertinho e sensível, mas só com certas coisas, e quando a vida deixa, menina perolazinha!

Nita – Não são caraterísticas de “alguém que existe”, desculpar-se com: “Mas a vida não deixa!” Continuando… as mouritas eram às centenas em cada arbusto rasteiro, por isso a costa ficou cheia de camarinheiras. E… muitas multiplicaram-se ao luar!

Nito – Ohh! E… agora?!… Tenho um amigo, descendente do navegador, que talvez as possas desencantar, se a vida deixar.

Nita – Obrigada, mas reza a tal página da história que as camarinhas-mouritas estão à espera de …

Nito – Reza?!… Eu não sou dessas coisas!

Nita – Claro! “Mas é vida que não deixa”…

Nito – Pois! Está bem! Então, e o que reza a dita?

Nita – A dita reza que isso só será possível se um escolhido do povo vier munido de todas as armas, e ainda de equipamento manual.

Nito – Para quê, Nela Camarinha, se as camarinhas são meninas?!…

Nita – Hummm! Diria, menino belo moço, que é muito instruído sobre camarinhas-meninas!

Nito – Sê-lo-ia, “mas a vida não deixa!”

Nita – Claro, “(…)logo existo”. O equipamento manual é inofensivo: vestuário impermeável, calçado, chapéu de oleado, água e farnelito na mochila, um bloco, um lápis e um apara-lápis na algibeira, e muita imaginação!
Diz na mesma página que as sereias e as gaivotas já atapetaram algumas rochas para o receber…

Nito – Ah, Nela Camarinha como gostaria de me instalar nesse local, de sentir o vento e a chuva, o cheiro das ondas…

Nita – Então, Nelo Caroço, menino belo moço que: pensa, sente, comunica, lê, é espertinho e sensível, e sabe que as camarinhas são meninas, TU EXISTES!
Queres que isso aconteça?

Nito – Quero, Nela Camarinha perolazinha, “mas a vida não deixa!”

Nita – Deixa, sim! Um dia! Só um dia grande e único! Cogita, acredita e deixa que a vida aconteça!
Menino belo moço, muito obrigada! Afinal, TU EXISTES, mesmo! Toma um molhinho de camarinhas, mas… cuidadinho, porque podem ser mouritas encantadas e… darem-te dentadas!

Nito – Menina Perolazinha, dizes as coisas de um jeito! Gosto! É Bonito, Nita, minha amiga!

Nita – Muito Obrigada, Nito-amigo! Vem aqui ao pé de mim! Fecha os olhos, respira fundo, e sente a alegria deste sabor a maresia!

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