Cogitações de um Rouxinol Citadino

Uma Flor para o Cristo Rei, 2015

– Hoje deu-me, imaginem, para assobiar!

Vou dar uma volta pelo parque para treinar! Sim, por que as árvores hão de gostar e… dançar!

Mas, na paragem do metro, tenho de me controlar, e assobiar baixinho, porque a minha melodia vai ecoar e… vai ficar tudo a olhar!

E… se alguma menina quiser apanhar o meu assobio?!… Não posso escorregar no sorriso! Tenho de me controlar e… continuar a assobiar! Não sou um assobio qualquer!

E… se me apetecer ir de carro?!… Ahhh! Poderei ir sempre a assobiar! Será a música portuguesa no ar, sobretudo quando o sinal vermelho me obrigar a parar; até as pombas vou ouvir arrulhar!

E… ao percorrer a rua, todos se irão admirar e, certamente, quererão imitar-me, e dirão uns e outros:

– O ar vai afastar a poluição com os sopros de tão belo assobio!

– Viva a alegria portuguesa! Não há nada que chegue a um bom assobio!

As estátuas, fazendo vénias, declararão:
– Disto já não se fabrica em Portugal! Este assobio é uma riqueza nacional!

– As manequins das montras vão deixar escorregar a roupa e exclamarão:
Precisamos de uma fada, queremos ser as notas a sair da boca do assobio!

Os automobilistas pararão para ouvir o assobio a passar entre eles, e o da caranguejola pensará:
– Ainda bem que não há sinaleiros, se não ainda era multado!

O menino dirá à mãe:
– Olha, o Pai Natal já deu um presente ao Sr. Alegrete! Quando for grande, quero ser um assobio como ele!

A menina irá atrás de mim, puxará pelas minhas calças, e com os olhos de mel e um sol sorridente nos lábios pedir-me-á:
– Rouxinol, dá-me o teu assobio! É só um bocadinho para eu acordar o dia, convidar as pessoas para fazermos uma roda e assobiarmos um grande BOM DIA! Queres?!…

E… eu vou oferecer-lhe um grande sorriso assobiado com este palavreado:
– Quero! Bora lá!

– Obrigada, senhor rouxinol! O teu assobio não se parte!

– Não! Como é que sabes?!…

– Estou a ler aqui na música do teu coraçanito de verão! Dá cá a tua manita: Um! Dois! E… três! BOMMMMM DIAAAA! ASSOBIA! VIVA A ALEGRIA!

Finalmente, uma gaiola dourada com muita gente sentada no seu lento deslizar, fica quieto na sua parem e, ao ver o elétrico sem andar, o pasmado rouxinol deixa cair o assobio, começa a trinar, a sacudir a pena, e… prepara-se para dar à asa!

E… talvez haja condições de acesso para alguma passarinha levar um amigo consigo, se bem que vá assobiar para outro lado!

Bem!…

O melhor é o assobiador deixar a assobiada para um momento mais assobiante, porque na confusão do concerto da cidade nem sabem o sabor de uma boa “asso bia dela”!

E… uma assobiadeira à maneira podia causar estragos assobiados nos vidros e nos estrados do (des)encontro, que pode ser bem “fada do” ou um grande fado!

Um assobio de mar para qualquer bom assobiador sorrir com alegria, e… se alguém ouvir um rouxinol, lembre-se deste assobio, e… ria, ria!

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