O Vigor e o Pavor da Idade

A Eterna Serenidade, 2013

O vigor da idade é a serena determinação, a lucidez e a autonomia de noventa e dois anos numa sala de espera de um hospital num rosto bem barbeado, numas calças a condizer com a restante indumentária, numa pequena bolsa de trazer ao ombro com o nome da Vila Morena, é o silêncio oportuno do olhar sábio, é o erguer cedo da cama, às quatro e tal e fazer tudo sozinho, é o passo firme e as mãos sem sinais de artroses, é a sorridente, simples, salutar, grata e consciente declaracão:

” – É bom estar cá, chegar até aqui e gozar de saúde, tomar conta de mim sozinho sem incomodar ninguém, graças a Deus!”

O pavor da idade, dos mesmos anos contados, é o medo de adormecer e não acordar, de senti-la a rondar, de ter dores e dores sem parar, apesar da mobilidade, do lenço de todos os anos na cabeça, da memória da sua voz feminina rodeada por duas senhoras-meninas que trouxe ao mundo, é o palpitar do coração dividido entre o peso da idade, acha ela, que a faz temer o que não quer partir, em vez de ficar!

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