O Procópio, o Pirolito e… a Língua

Menino Desenhor

O Procópio escrevia o texto e ia lendo em voz alta.

– Era uma vez um menino que… que… gostava muito de …

– Gostava muito de língua, e… como não era nada esquisito, aquilo era um ver se te avias com tanta língua! – continuou o atrevido Pirolito, sacudindo as penas azuis da sabichona “testa”.

O Procópio sorriu, divertido, e pegou na frase do papagaio-amigo.

– Gostava muito da língua-mãe e…

– E… da língua de todas as filhas das mães de todas as partes do mundo, porque… Ajuda-me, Procopiozito-Amiguito! – pediu o papagaio, perdendo as palavras no bico negrito.

– Apreciava as línguas desde a Torre de Babel até aos mais recônditos dialetos – completou o menino no seu saber.

O amigo interrompeu-o:

– Gostava de língua de fora, de língua dobrada, de língua comprida, de língua afiada, de língua direta, de língua muda, de língua cantante, de língua atabalhoada.

– Até fazia traduções de outras línguas aos serões – declarou o Procópio, enquanto escrevia.

– Só não gostava de línguas de gato, nem de línguas de veado, porque não eram o seu estilo – apressou-se o Pirolito a afirmar.

– O tal menino era perdido por língua viva, a língua de mel, uma língua de ouro, que falava muitas línguas, que ele entendia, e que falava, falava e falava, nunca se cansava, nem dava com a língua nos dentes, refutando o sábio ditado: “Pela língua morre o peixe,” com: “Eu sou um mamífero!

– E sonhava falar muito bem calado, mas não podia ter nada debaixo da língua – acrescentou o papagaio sacudindo a cauda.

O Procópio agarrou nas palavras do amigo e deu continuidade ao seu pensamento:

– Soltava a língua nas assembleias e onde calhava, e pasmava todos com o que tinha na ponta da língua e, depois de ouvi-lo, todos diziam:

– Muito bem! Não tem papas na língua! – aplaudiu o Pirolito com as asas. O Menino-Senhor da Língua também gostava muito de puxar pela língua dos outros, para ela ficar mais comprida, e como era pescador cogitava com um riso malandreco:
– Pela boca morre o peixe!

O Procópio aceitava o desafio do seu amigo:

– O que o Menino-Senhor da Língua também sabia, era que a língua tinha um espelho onde se via tudinho o que era sintético, analítico, monossibilático, aglutinante, flexional e muitas coisas mais terminadas em -ante, como desinfetante, e -al, como bucal, e da divisão e união das línguas em famílias, e que era preciso ter tino na língua, que se quer bem lavada e educada.

– Agora sou eu, Procopiozito-Amiguito – reclamou o Pirolito. E… o tal Menino da língua bué de grande e abastada, e que nunca parava, quando estava sozinho e ofegante, depois de alguma missão com língua de palmo, descuidava-se ficava de língua de fora!

– Pára, Pirolitozito-Amiguito! É a minha vez, reivindicou o Procópio. E… depois de uma boa ensaboadela linguística, o Menino-Senhor da Língua saboreava a doce pureza da língua à portuguesa na mesa do banquete da gramática da vida com suculentas maçãs da árvore do prazer, e com outros paladares agridoces de comunicação, traduzindo sabores inocentes, brincalhões, entaramelados, velejando na língua das palavras feitas de sorrisos.

– Muito bem, Procopiozito-Amiguito! Bom trabalho de grupo! Somos uma equipa bué de fixe! Vou ali ao terraço namorar a Gasosinha-Limonada!

– Concordo, Pirolitozito-Amiguito! Foi muito divertido! Obrigado pela tua ajuda! Bom namorico!

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