A Pescaria do Rei dos Burrinhos

As Pedras dos Miúdos, 2013

Os amigos das pescarias chamavam-lhe: “o rei dos burrinhos”, peixinhos finíssimos na sua textura branca e no sabor.
Descia as escadinhas da praia, de caninha ao ombro, contemplando a sua serena baía pintada de barcos ainda deitados no seu tapete azul, aguardando os seus mestres para se fazerem ao mar!
De vez em quando, parava, respirava fundo, e cogitava…

“Belos tempos, em que descobri as riquezas desta praia! Que me dera reencontrar as miúdas daquela época agora, em tamanho aumentado, mais ágeis, mais dadas; até podia dar uns pontapés na bola com elas, levá-las para a água aos gritinhos, irmos às lapas!…”

Avistou um veloz ciclista!

“Olha! Lá vai o flecha, lançadinho na sua bicicleta, garantindo a sua forma! Os homens não se medem aos palmos!… Nem as mulheres, claro! Eu que o diga! Há cada baixinha!…”

Parou junto à bica da Santa Lúzia, e continuou cogitando, jeito que sempre tivera, e que ia deixando amadurecer com os anos de experiência de vida!

“Vou lavar as vistas, espero, mas… pelo sim, pelo não, lubrifico-as já! Sempre me dei bem com a água da milagrosa da Santa!”

Quando chegou à praia, descalçou-se, abriu a cadeira, poisou a sacola, ajeitou o boné, colocou o isco no anzol, aremessou a cana ao mar e fixou-a na areia!

Depois, sentou-se com um olho ao largo, alternando com os dois para o lado, ora para a zona da ribeira, ora para a do pontal!…

“Isto está fraquinho!” cogitava! “Alguma coisinha há de picar… no isco! E… a minha praia, é a minha praia!”

Sentou-se e tirou um livro de histórias da sacola. Consultou o índice e… abriu n´As Alentejanas a Banhos.

“Sugestivo o título com personagens femininas, talvez “bem trajadas” como pedem as circunstâncias, e… sensuais, seguramente! Vou ler!”

O sol ia subindo e dourando cada vez mais o mar.

Senhoras ágeis e outras serenas percorriam a praia, olhavam para o do rei dos burrinhos, que lhes sorria gentilmente.

Tinha sede! Pôs o cantil à boca e refrescou-se!… Olhou para a caixinha da merenda, abriu-a, e… com um ar gulosamente malandreco retirou um biscoito sem açúcar, um oito. Ao seu lado, estava outro oito, um S e um guardanapo com escritos em vários idiomas, cada um de sua cor, que dizia:

” Bom apetite e boa pescaria! Carícias de Bom Dia com sorrisos!”

Sorriu, sorriu, e deleitou-se com o seu oitos em voos da sua fértil imaginação!

De repente, sentiu picar! Ergueu-se, puxou a linha com o carreto!

“Está pesada! Querem ver que apanhei alguma baleia que deu à costa?!…” – cogitou, sorrindo, vitorioso!

(continua)

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