As Brincadeiras da Nita e do Nito – A Surpresa e o Susto da Nita

A Janela da Muralha

A Nita estava de boca aberta com o que via e ouvia!

Um tenor alto e elegante, de smoking e camisa branca brilhante encantava-a e emudecia-a, e a todos os espectadores, com a sua voz possante e majestosa, que enchia o salão do palácio dourado!…

Do seu camarote oceânico, muito corada e espontaneamente debruçada, a Nita sorria, sorria, emanando dos seus olhos feixes de farol suspirantes para o indiferente tenor!

E… cogitava…

– Ainda bem que o Nito se encharcou em água ontem à noite, não comeu aqueles tentadores chocolates, fez a sesta à tarde, não comeu picantes ao longo do dia, substituiu o café pela chazinho de gengibre com limão, foi passear pela Ilha do Pessegueiro longe da poluição!

E… o tenor cantava, cantava!…

E… o público escutava, aplaudia!…

A Nita, a orgulhosa amiga do tenor, olhava para todos vitoriosa como quem diz:

– Minhas senhoras e meus senhores, este é o Nito, o máximo dos máximos dos tenores!…

E… como se a ouvissem, os sensíveis e entendidos movimentavam a cabeça em sinal afirmativo!

E… quanto mais a voz do tenor se erguia com o ardor arrancado do seu peito e um discreto sorriso nos seus lábios, de olhar fixo – sabe-lá para onde, e em que onda – ou semi-cerrado apontado para todo o lado, mais a plateia feminina se inquietava na cadeira e o festival do leque (re)começava!

E… lá vinham os coros dos bês:

– Bravo! Bravo! Bravo!

– “Brabo! Brabo! Brabo”!

– Bis! Bis! Bis!

– Bravíssimo! Bravíssimo!

– “Brabíssimo! Brabíssimo”!

– Boa! Boa! Boa! – esparsos, vindos do público mais jovem!

E… no meio desta “bitória”, um bê voava direitinho ao ouvido do tenor:

– Bebe! Bebe! Bebe!

E… com muitas vénias de agradecimento com o braço direito como quem tira o chapéu ao público, com a mão “volvendo” ao peito, em sinal de “merci, thank you, gracias”, fluíam “obrigados”, gesticulados, e um pouquinho abaixo, como quem diz: “Já não me aguento!”, o tenor agradecia, agradecia, em todas as direções, dava um trejeito à cabeça, para trás, com um ligeiro e irresistível movimento aos cabelitos, destacando os de trás, os mais compriditos!

O “cortinado” do palco, oferta de uma dama muito rica, que tinha autografado as bainhas, foi-se fechando gradualmente!

As luzes da sala mostravam as saídas.

E… a espectadora do camarote oceânico, finalmente sentada, parecia estar nas nuvens!

A pouco e pouco foi sentindo a luz, e… abrindo os olhos!

À sua frente estava um “mordomo” com uma pequena salva na mão. Estendeu-lha, e disse-lhe:

– Madame, aqui tem a conta!

Não sorriu, mas agradeceu, sem perceber o que se estava a passar! Depois arremelgou os olhos perante os 1500€, e… recostou-se na cadeira, empalidecida!

O mordomo retirou-se, prevenindo-a de que iria buscar água!

A Nita começou a sentir o acelerado bater do seu coração, à medida que cogitava:

– E… agora?!…. Como é que eu pago isto?!…

Depois, a pouco e pouco, foi recuperando as forças e o raciocínio! Lembrou-se de que um cartão visa, seria uma boa alternativa, mas… não o tinha consigo!

Afinal, ela fora até ali para ver o seu tenor preferido, o Nito, o seu amigo, e não para fazer compras, e muito menos daquele valor!

– Calhando, vou presa! – cogitou, aflita!

Agitou-se na cama!

Tinha sede!

Viu a luz do dia através da persiana!

Sorriu, mas sentia aquela angústia no peito!

E… ainda via o seu resplandecente tenor, e ouvia a sua inebriante voz!

Respirou fundo e cogitou:

– Foi um sonho! Um lindo e surpreendente sonho! Pouco importa o susto que o “mordomo” me pregou, o qual me acordou!
E… o meu amigo Nito até é um grande tenor no seu saber: na escola é um ás, na amizade não se fala, e… até joga bem à bola, o bom rapaz!
Também é um lindo rouxinol, a cantar melodias em direto, pela “nossa rádio”, e quando atende os meus “discos” pedidos, e… ainda quando, como dizem os mais espertinho: “me dá música”, e começa a fazer aquela boquinha, a esconder o sorrisito “picadeiro” ou o outro de quem não acha graça, porque o apanhei ou lhe ganhei!…

Vou despachar-me! Preciso de chegar cedo à escola para ver como é que o Nito trina nesta manhã, e… ao longo do dia, principalmente à tardinha no nosso joguito, e… só depois lhe conto este meu sonhozito! – vai rir-se, certamente, e eu também!

FIM

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