O Espelho que Era Gente – 1.ª Página

Reflexo Estrelado, 2015

No planeta em que a lua se banhava nas águas calmas havia um espelho cintilante, o Aul, que todas as mouritas sabiam tratar-se de um príncipe encantado!…

Na província mourisca, nos dias de festa, o espelho Aul estava em todos os salões das alcáceres e nas alcáçovas, refletindo a sua diáfana luz, encandeando as tímidas mouritas, seduzindo todas as outras, que o embaciavam com o bafo dos seus atrevidos e embriagadores sorrisinhos!…

Encantado pelos fru-fru das saias dançantes das moiritas, principalmente quando elas se elevavam em certos passos de dança, e lhe mostravam as suas rendas brancas e engomadas, desenhando corações alaranjados, estrelas azuis e beijos rubros, o espelho aul suspirava, e… estendia os seus finos raios, belicando os alvos tecidos que encontrava, e… estralava, faiscando!…

E… cada vez mais, cada mourita sorria, dançava e saltava!…

E… o espelho Aul cogitava:

– Não me faltam afagos, fugazes, é certo, e para um espelho tão solicitado… Mas… eu sou um príncipe!
E… se não estivesse encantado, certamente dançaria com alguma pálida francesa, de lábios distantes, a quem estaria sempre a pedir desculpa pelas pisadelas!…

As mouritas continuavam a dançar, a desafiar e a deliciar-se com o espelho Aul.

De vez em quando, a luz de Aul era atravessadas por sombras de vários tons, alguns finos e longos filamentos ou flexíveis e encaracolados, azeviche, dourados, avermelhados, alaranjados, acastanhados bafejado-o com distintos e doces perfumes, alguns floridos, outros marinhos, ora doces, ora frescos, os sempre coceguentos e apetecíveis cabelos das mouritas, rodopiando as cabecinhas de ventos quentes e frescos!…

E… o espelho Aul relampejava!…

E todo o salão sorria e se alegrava com aquele fogo de artifíico, que os pintava de outras cores, e…. os alumiava!…

– Boa vida, volúvel espelho! – satirizou o círio amarelo do candelabro vermelho!

– Podes dizer, luz dançante, que um sopro ou uma gota de chuva apaga!… – respondeu o espelho trocista!

– E tu, pobre príncipe encantado escondido nesse espelho, que uma cabeçada de criança pode partir – replicou o círio amarelo.

Foram interrompidos pelo silêncio da orquestra!…

(continua)

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