Perdido na Cidade das Memórias

Mar da Maravilhosa, 2013

Percorre a cidade entre as casas brancas, respirando a seiva dos verdes anos, cumprimentando as recordações vivazes poisadas às portas entreabertas, sentindo o perfume doce das janelas floridas, ouvindo o eco do murmúrio das vozes amigas e os simpáticos bons-dias dos conhecidos, o “olá” colorido do papagaio saciado de aromas de delícias de panito mole…

Dá mais uns passos…

Começa a descer as escadinhas pintadas de maresia, tocando as flores vermelhas que se põem de pico de pé para saciarem saudades…

Para!

Fecha os olhos!

Escuta o tímido canto das ondinhas, beijando com sorrisos as saudosas pegadas de criança e de jovens sonhadores…

Aproxima-te, e deixa-te embriagar pela brisa vestida de mantos quentes bordado de tons laranjas, tecido de brincadeiras de meninos, pespontado de passos trémulos de adolescentes…

Colhe com o olhar as longínquas bananas da hortinha…

Sente o veludo do musgo da bica, oferecendo a sua água milagrosa para “a(s) vista(s)”, e estende a conchinha da tua mão que a caninha da Índia encherá sob o sorriso da Santa, que te lavava os teus pés cheios de areia…

Dá mais uns emocionantes passos!

Descalça-te!

Sente as carícias da areia agora rugosa e mais morena, contudo ainda lisa, branca e quente nos teus sentidos…

Despe-te da roupagem que os anos te vestiram, e vive a liberdade do prazer deste momento íntimo!

Revive as cenas das imagens reproduzidas nas águas transparentes!

Entra suavemente na roda que os escorregadios peixinhos fazem à tua volta!

Dança com a doçura atrevida das ondas, mergulha!…

E…

Saciado e revigorado, vai para além das boias, sobe aos barcos, sente o seu cheiro, adormece no seu vaivém à sombra da vela do que viveste, e… sonha com os os sonhos que sonhaste!…

Acorda com o voo da gaivota, refrescando-te da intensidade dos raios solares bafejada de madrugada…

Abre os teus olhos banhados de azul-dourado, e abraça tudo, faz desenhos ondulantes nas águas calmas com as tuas mãos empreendedoras, pega no pequeno colar de conchas e búzios que está ao teu lado, e descobrirás uma escada…

Regressa calmamente à cidade grande com passaporte para o mundo, e leva sempre contigo o luminoso e perene respirar do farol batendo no teu coração inflamado de amor e bondade, ecoando no silêncio!…

E…

Nesta viagem, quando a nuvem passar e o vento anunciar a chegada da sua amiguinha chuva, ou o relâmpago, ou o ribombar do trovão, caminha seguro, livre, forte, corajoso, vencedor, porque a nuvem escreve mensagens com imagens, a chuva refresca e renova a vida, o vento é mestre de danças, o relâmpago mostra paisagens adormecidas, o trovão é barulhento e brincalhão!…

E…

Ainda deslumbrado com o mar calmo, turquesa, ou a resmungar, com o seixo branco a rolar, com a criança a traquinar, com o idoso a ensinar, com mão a limpar uma lágrima oculta, com a escrita a espreitar, com a alegria a desafiar(-te)!…

Caminha com passos de bebé e com as tuas grandes passadas!
Para!
Pensa!
Recomeça!
SORRI!

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