Estórias de Meninas – Os Chilreios das Andorinhas

Flores Acordadas, 2015

Manhã sonolenta de sábado!

Um chilreio alvoraçado de uma andorinha de saias; depois outro…

O eco de uma brincadeira que se adivinhava aos ziguezagues…

Depois… dir-se-ia que um bando poisara debaixo da janela, e… brincava, brincava, gritava, gritava!…

Eram sete andorinhas-meninas, mais ou menos da mesma idade, certamente alunas do primeiro ciclo, cabelos longos e morenos esvoaçando na sua correria, exceto os louros encaracolados presos na nuca com uma fitinha cor-de-rosa, igual ao casaco.

Eram catorze pernas aos saltos, dez de joelhos à mostra e quatro de ganga tapadas, formando uma roda mal formada, atirando umas às outras algo alongado, cinzento-azulado, dentro de um saco plástico, que se me afigurou um pequeno saco-cama.

Eram catorze braços de casacos de linha garridos vestidos, e três de ganga, mais rijos e compridos, levantado-se, baixando-se, protestando, batendo palmas às vitórias.

Eram uns óculos de aros de massa preta, tentando fazer da mais pequena, franzina e resmungona andorinha-menina, uma professora, que, de vez em quando dizia:

– Ó pá! Não temos nada para brincar! Eu quero ir para casa, mas a minha mãe não me deixa!

Eram as outras andorinhas-meninas ziguezagueando sem parar, a inventar, a inventar como podiam brincar para lhe agradar, sem descobrirem onde poder-se-iam esconder, e não paravam de gritar!

Era o jogo do tal saco, de uma mão para outra, ou para o chão com um coro bem orquestrado, acordando o silêncio, deixando o eco assustado com este refrão:

– Batata frita, um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez!

Era uma persiana a abrir-se no último andar!

Era uma voz feminina e branda:

– Pchiu! Pchiu! Pchiuuu!

Era a batata frita ainda a saltar, mas… com a chama mais branda, e o eco sempre a bracejar!

Era a persiana a abrir-se novamente no último andar e… uma voz masculina rouca, mal-humorada e muito malcriada, proferindo uma só palavra, que fez as andorinhas-meninas obedecer e… começar a correr! – que faria tal sujeito se as unhas do seu cão, que prefere ter em casa a dar-lhe liberdade no terraço, arranhassem a sua cabeça em vez da do vizinho de baixo?!…

Era o eco do bando das andorinhas-meninas, brincando ao longe na manhã que fora docemente presenteada com a calorosa frescura da sua presença!…

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