As Brincadeiras da Nita e do Nito – O Sonho de Cabelos Brancos

A Janela da Muralha

– Nito! Nito! Nitoooo! – chamava a Nita, elevando gradualmente a sua doce voz!

O amigo parecia absorto!

Olhava o mar como se fosse uma bola, afastando-se ao sabor da corrente!

– Nito! Ó Nito! Estás doente? Não falas, porquê? Já sei! Dói-te a garganta! Estás rouco! Ou melhor, perdeste o pio como diz a D. Felicidade! – insistia!

O menino continuava mergulhado na sua mudez!

A menina tirou o seu bloquinho da algibeira, depois o lápis, e começou a escrever!…

E… ia escrevendo, e lendo melodiosamente a beleza de cada palavra com o néctar do seu coração…

– Era uma vez uma menina minúscula, que tinha um amigo maiúsculo.

A menina minúscula vivia na Rua da Alegria e quase tocava o mar com as mãos.

O amigo maiúsculo morava na Rua dos Manjericos e avistava o Largo de Santo António.

A menina minúscula andava a ler um livro chamado: Amigo É uma Coisa Séria.

O Amigo Maiúsculo estava a acabar a leitura de uma obra designada: As Mouras da Terra do Gama.

A menina minúscula estudava a amizade, brincava, sorria, cantava e viajava com a imaginação, fazendo balões de sabão e desenhando histórias animadas nas nuvens.

E…

O amigo maiúsculo percorria os pontos cardeais da história do mundo, sonhava ser marinheiro e com meninas-mulheres bonitas, e fazia planos para endireitar tudo o que era contra.

Mas, nada disso importava, porque a menina minúscula e o menino maiúsculo eram uns grandes-miúdos-amigos, que brincavam, riam, conversavam, contavam histórias e não tinham segredos um para o outro!

De manhã, e a qualquer hora do dia… a menina minúscula, amiga-maiúscula, oferecia ao seu amigo-menino-maiúsculo…

– Nita, tive um sonho!… – balbuciou o Nito.

– Um sonho?!… Conta! Conta, Nito! Esta história estava sem graça, porque o teu silêncio até faz uma menina cheia de saúde como eu ficar com dores de cabeça. Até me deixaste preocupada, mas… agora vamos viajar no teu sonho – declarou a Nita, entusiasmada.

–  Desculpa, mas aquele sonho não me sai da cabeça! Era uma festa num largo, numa terra que eu não conhecia. Havia umas pessoas fardadas, e outras que falavam ao microfone, elogiando um homem que ajudara a salvar muita gente – começou a narrar o Nito!

– Que bonito, Nito! Não havia crianças? E depois? – adiantou a Nita, curiosa.

– Crianças? Só vi uma menina de caracóis, que tinha o cabelo preso e usava uns óculos. Bem! Depois… havia dois pequenos grupos de homens parecidos uns com os outros, umas caras que eu já vi, mas… pequenas, sem barba, e sem cabelos brancos… Mas, um deles, o mais novo do grupo dos mais altos, sorria como a minha mãe! – continuou o amigo.

– Nito, que sonho! E o que aconteceu nesse largo? Deixa-me adivinhar! Estes homens era da mesma família! – disse a amiga, impressionada.

– Também, achei, Nita! Alguns irmãos, e talvez primos uns dos outros, mas… – respondeu o Nito.

– Mas… Nito! Estou curiosa! Conta-me, por favor! – suplicou a Nita.

– Calma, Nita! Mas, o homem mais alto, mais forte, e de cabelos mais brancos e maiores, aproximou-se de um monumento estranho, tirou uma bandeira, e… – prosseguiu o menino.

– E?!…

– E… eu vi um nome, sim! Garanto-te que vi! Acordei! Acordei assustado, a gritar pelo meu avô! Já não consegui dormir! Lembrei-me de tantas coisas e com tanta saudade, Nita! – desabafou o amigo.

– Nito, anda cá! – disse a Nita ternamente, aproximando-se do amigo, abraçando-o! Deves ter muitas saudades do teu avô! Podes chorar! As pessoas que choram com o coração são grandes e boas como tu!

Permaneceram abraçados em silêncio com os corações a bater aceleradamente. Depois o Nito disse:

– Obrigado, Nita! Tenho tantas saudades dele! Foi tão importante para mim! Ainda é! Vai ser sempre!

– Vai, pois, Nito! Mas, não achas que devíamos ir à procura daquele livro de um médico estrangeiro, que tinha um nome com -mundo, mas não era Edmundo como o sogro do Sr. Maurício das Caldeiradas, e Fre- qualquer coisa, mas não era Frederico como o “ti” Jacinto, que escreveu sobre os sonhos? – concordou a Nita, dando uma sugestão.

– Ai, Nita! Essa tua cabecinha! Foi só um sonho! – respondeu o Nito, já recomposto da emoção, desvalorizando o sonho.

– Só um sonho, Nito?!… E se daqui por muitos anos o sonho for realidade, e tu o homem mais alto, mais forte, e mais branquinho!… – desafiou a amiga.

– Nita, se tal sucedesse, eu sentir-me-ia muito feliz pelo meu avô! – afirmou o amigo.

– Eu também, Nito! E… tu que gostas tanto dele, até merecias estar nessa festa, tirar a tal bandeira, e… falar ao microfone! – adiantou a Nita muito segura de si.

– Não digas essas coisas, Nita! – pediu o menino, envergonhado.

A Nita olhou para o amigo, sorriu, e disse:

– É verdade, Nito! Vamos ali à bica da Santa Luzia lavar os olhos?!…

– Vamos, Nita! – respondeu o menino.

– Ó Nito, mas achas que se lavarmos muito os olhos na bica, podemos ver coisas do futuro? – questionou a Nita.

– Não podemos nada! Bora lá! – retorquiu o Nito.

– Bora, Nito! Mas… pelo sim, pelo não, quando for à catequese, pergunto ao Sr. Padre! – insistiu a menina, guardando o bloco e o lápis que tinham ficado a ouvir a conversa sentados num degrau de pedra do castelo, conhecedor de muitas histórias, muitas do passado e algumas do presente.

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