As Brincadeiras da Nita e do Nito – Quando Eu For Grande…

A Janela da Muralha

A neblina encobria o mar, as casas, a povoação.

O castelo parecia assombrado!

A Nita e o Nito sentiam-se fantasmas!

Ela disse que brincar naquele dia não  tinha graça.

Ele insistiu para que ela ficasse.

– Vamos fazer um jogo, Nita! Só um bocadinho! Poder ser “quando eu for grande”? – propôs-lhe o amigo.

– Pode ser, Nito! Mas, olha lá! Já tenho o cabelo molhado – concordou a amiga, com reticências.

– Boa, Nita! Vou começar! Um dia, regresso para esta nossa terra, para junto do nosso mar. Não sei é se ele vai gostar de me ver fumar, porque vai andar tão cansado de tanto fumo industrial, que ainda pode confundir-me com alguma chaminé – afirmou o Nito, fazendo caretas ao fumo que ainda estava longe de si.

– Ó Nito, que conversa é essa de vires a fumar?!.. O tabaco faz mal. Devias pensar no que queres ser quando fores grande!

– Ó pitinha, todos os homens fumam; eu não posso ser diferente!

– Conversas de miúdos, espertinho! O meu pai é um grande homem, e não fuma. Ele diz que fumou quando era novo, mas um decidiu deixar e nunca mais! Mas, eu nem me lembro de vê-lo com um cigarro na boca. E que conversa é essa do fumo industrial? A nossa terra é piscatória e de turistas, no verão.

– Está bem! Tu não percebes, pitinha. Mas, sobre o fumo industrial, ouvi uma conversa lá em casa, que já se fala em tornar esta terra numa zona industrial com um grande porto.

– Nito, mas não é um porto de abrigo para os barcos de pesca, o que vão construir?!…

– Não! Isso é o que dizem, mas estão a pensar noutra coisa. Vou continuar. Mas as saudades do nosso mar vão superar a tal confusão visual, porque, coitado, ele já terá alguma idade! E ainda havemos de ter conversas de homem para homem, de homens e recordar os tempos de miúdos, os sonhos, as voltas que a vida dá! Mas vamos estar lá, isto é, cá! – afirmava o Nito otimista, esboçando sorrisos malandrecos!

É a tua vez, Nita.

– Hum! Um dia,  regresso à Madeira, ao bailinho, só para dar um pezinho de dança, comer um pedaço de bolo de mel, revisitar as caves e, claro, reencontrar-me com as “irmãs” e saborear o que há no caco do Curral – que nome, para iludir os turistas e dispersar a sua atenção –  projectava, a Nita com um olhar sonhador e viajado!

– Ah! Ah! Queres ir à Madeira e voltar lá?  Pois eu, um dia, regresso à Miróbriga! Hum! Aquele cheiro a romanas, apesar de estar em ruínas, mas elas ainda andam por lá! Só é pena serem de Santiago! Realmente, têm uma carita diferente das caramujitas, mais tipo Maria Campaniça, mas sempre me proporcionam um encontro com a cultura e a história. E é tudo boa gente!

Será que consigo comprar nas redondezas alguma língua de sogra, aqueles bolos caseiros, fabrico de padeiros, parecidos com uma papo-seco crescido, mas mais elegante, que têm recheio de chila? E almoçarei um prato de “jantarinho” ou migas de ovas com linguado frito nalgum restaurante? Será que sabem fazer leite creme? – sonhava o Nito na sua viagem pelo tempo.

A Nita ria do que o Nito dizia!

Ele estava a ficar corado. E antes que se zangasse, e se fosse embora “mudinho de um todo” como diziam na terra do Manuel da Fonseca, a amiga adiantou:

– Nito, não sabia que gostavas tanto do cheiro a romanas, nem que preferias as caramujitas, e muito menos que apreciavas a comida da terra do tal escritor, mas tu não gostas mais de carne de porco à alentejana?

– É para que saibas, pitinha! Então o jogo não é”quando for grande”?!… E gosto mais de carne de porco à alentejana, pois! E de leite creme! E de panito alentejano. Daqui a uns anos, tenho de ter cuidado para não partir nenhum dente, porque dizem que com o tempo, as nossas dentaduras ficam gastas.

– Grande espertinho, Nito! – declarou a amiga, dando uma gargalhadinha.

– Podes dizer, Nita! Obrigado! – agradeceu o amigo.

A Nita olhou para o céu! O tempo estava pior! Caia uma espécie de chuvinha miudinha. A menina retorquiu:

– Nito, está na hora de pormo-nos  a caminho e regressarmos a casa! Eu moro mais longe!

– Tens razão, Nita! Mas, anda ali a casa, e levas um boné na cabeça – respondeu o amigo.

– Obrigada, Nito! Eu vou a correr! Lembra-te de que sou rápida! Olha… – afirmou a amiga.

– Estou olhando… – gracejou o Nito.

– Engraçadinho! Achas que no “quando eu for grande”, nos vamos encontrar? – questionou a Nita com um ar apreensivo.

– Não sei, Nita! Mas, espero que sim! Havemos de ter muitas coisas para contar um ao outro. Vai ser giro! – opinou o Nito.

– Eu também espero que sim! O pior é se o fumo te sobe à cabeça, e… ainda te esqueces de mim! Vou… – concluiu, receosa, a menina.

– Não me esqueço nada! Bora! – disse o Nito, convicto.

– Espera! Partida! Largada! Fugida! – desafiou a menina, tomando a dianteira.

E os amiguinhos correram juntos até à porta do castelo.

Ela continuou sozinha, sem olhar para trás, no seu pezinho ligeiro.

Ele parara a olhar para ela, sorrindo, e cogitando:

“- A danadinha da pitinha corre bem! Mas, se eu quisesse, apanhava-a!”

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