A Menina Azul e a Amiguinha Ninha

A Menina Azul Decorria o ano letivo.

Naquela noite invernosa, como em tantas outras em qualquer estação do ano, a Ninha, uma menina de longos cabelos ruivos e de rosto salpicado de sardas, ia dormir em casa da Menina Azul, motivo de grande alegria, principalmente para as duas amiguinhas.

Depois de um jantar farto de risadas, deitaram-se.

A Menina Azul, uma aluna muito aplicada, encostou-se à almofada, procurando uma posição cómoda que lhe permitisse estudar.

A Ninha já vira os desenhos de dois livros de contos, já gesticulara vezes sem conta, expressando os seus sentimentos pelos príncipes, princesas, e demais personagens, já se cansara de olhar para a dança da labareda do candeeiro a petróleo,  já chamara a atenção da amiga para o teatro de sombras que projetava com os dedos na parede,  já se sentara na cama, tirara o serviço de chá cor-de-rosa da prateleira, brincara, e arrumara-o, já não aguentava tanta espera pela atenção da amiga, que lhe fazia sinais para estar quieta, mostrando-lhe que faltavam poucas páginas para terminar.

A Menina Azul fazia um esforço para concentrar-se. A dada altura teve de pedir ajuda:

– Mãe, a Ninha hoje não está sossegada!

Quando a mãe da Menina Azul surgiu à porta do quarto, a Ninha e ela olharam uma para a outra, desta vez sem os sorrisos que lhes eram habituais, pois mantinham uma relação forte de afetos e cumplicidades. Usando a linguagem que a menina percebia, a Sr.ª explicou-lhe que, se não se portasse bem, iria levá-la a casa.

A Ninha cruzou os braços e ficou amuada.

Gerou-se um clima de silencioso desconforto.

De repente, a Ninha levantou-se da cama, calçou-se rapidamente, pegou na sua roupa, fazendo uma bola, que colocou debaixo do braço, e dirigiu-se para a porta da rua.

A Menina Azul entrou em pânico com a atitude da amiguinha, e pediu à mãe para não a deixar sair, levantando-se.

A Ninha, de lábios cerrados, e emitindo gestos de protesto, abriu a porta.

A mãe da Menina Azul, incrédula e divertida com a destemida iniciativa da menina, foi atrás dela, que continuava a olhar para trás e a manifestar-se ofendida, indiferente à noite escura e fria, e ao ventinho marinho, puxando-lhe pelos cabelos, se bem que a sua casa ficasse a escassos metros.

A Menina Azul, obediente às ordens da mãe para não sair de casa, ficou à porta à espera, lamentando que o pai estivesse no mar, confiante que tudo teria sido diferente, divertido até!

E… cogitava:

– Se a Ninha já frequentasse uma escola especial, podia ter lido uma história, e nada disto teria acontecido!

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