Gente Boa da Minha Aldeia – O Bom Dia Perfumado de Mar

Quilha de Barco-reflexos, 2012

Atravessava a rua apressadamente, aproximando-me dos escombros da modernidade.

À minha frente, caminhava vagarosamente um senhor com a sua camisa grossa, xadrezada-escura, com o seu boné descaído sobre as sobrancelhas, com as suas calças largas, com as suas sandálias nos pés cansados.

Parou.

Voltou o seu rosto seco e triste, e balbuciou em tom pausado:

– Bom Dia!

Retribui o cumprimento gostosamente cheiroso a peixe fresco, sentindo a sua intensidade.

Na mão, o senhor trazia uma saco de plástico verde com escamas até às asas, puxando pelo seu inclinado braço esquerdo.

Num instante, fui transportada à ribeira, e as memórias saltavam: dos barcos encostados à muralha, dos cestos prateados, escorrendo lágrimas dos peixes de olhos arremelgadamente assustados com a sua sorte “atirados” pela borda para mãos hábeis, que os seguravam, antes de o pescado ser disposto metódica e seletivamente sobre a areia, oferecendo azulejos aos olhares curiosos dos turistas, e entusiasmo aos calculistas compradores!

Abrandei o passo.

Olhei para trás!

Segui saudosamente o símbolo das riquezas de um tempo em que a minha aldeia era uma alegre e livre donzela, bailando nas marés, chorando nas tempestades, sonhando nas manhãs, beijando as estrelas adormecidas nas carícias da noite fria, friccionando as mãos dos pescadores com bafos de esperança!

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