Histórias de Fantoches – A Gabriela, 6.ª Página

A Gabriela

 

– Depois, a minha avó levou-me!

– E conseguiste entrar?

– Quando parámos perto da bilheteira, havia uma fila de pessoas grandes e sérias, e eu fiquei com a minha avó à espera que chegasse a vez da minha tia para ela comprar os dois bilhetes: um para ela, outro para a minha avó.

– Gabriela, e tu não tinhas medo de ficar à porta ou na bilheteira, enquanto elas viam o filme?

– Bela, eu sentia a minha barriga a tremer! E comecei a imaginar que eram os caracóis que tinha comido ao lanche, que não gostavam de estar ao escuro. E se eles decidissem saltar inteirinhos pela minha boca e trepar pelas calças e pelas saias daquelas pessoas? Seria divertido, pensava eu!

– Também acho! Devia parecer um filme de desenhos animados.

– Passou uma pessoa conhecida da minha avó, que a cumprimentou, e que tocou na minha franja, chamando-me Branca-de-Neve. E perguntou-me se andava à procura dos sete anões.

Tive vontade de deitar-lhe a língua de fora, mas o meu pai já me ensinara que era má educação, por isso continuei sossegadinha e caladinha, mas cheia de vontade de começar a correr até à minha casa.

–  Mas, Gabriela, não podias ir sozinha! E fizeste muito bem ter a língua guardada na sua casinha.

E a tua tia?

–  A minha tia chegou perto de nós toda sorridente com os bilhetes na mão como se fosse um prémio!

A minha avó olhou para mim, e disse-me que ia esconder-me debaixo do casaco comprido e largo que trazia vestido, para eu poder entrar e, antes que eu lhe respondesse, tapou-me com ele e puxou o fecho, pedindo para a minha tia se colocar daquele lado, um pouco mais à frente, para que o empregado não reparasse no volume do meu corpo franzino.

– Que aventura, Gabriela! Posso contá-la aos meus irmãos?

– Claro que podes, Bela!

– Obrigada! Continua, continua! Estou desejando de saber o que te aconteceu.

–  Eu não conseguia respirar. Sentia muito calor, e estava escuro, mas via os meus pés, e os da minha avó, e tremia de medo, porque alguém podia descobrir que ia a entrar uma senhora com quatro pernas e quatro pés.

Se os meus olhos fossem estrelas como o meu pai dizia, toda a gente me via, pensava eu.

E se me transformasse na “passarinha” que o meu avô contador de histórias me chamava, a minha avó tinha-me colocado na algibeira e eu podia voar para o meu ninho – era assim que a minha mãe se referia à nossa casa.

– Que aventura, Gabriela! E não foste apanhada?

–  Eu conto-te, Gabriela! Quando a minha avó se sentou, eu continuava no meu esconderijo. E  só consegui  retomar o fôlego quando apagaram as luzes, e ela me cedeu um pouco de sua cadeira, sugerindo-me que dormisse, porque o filme não era para a minha idade, mas eu vi-o até ao fim, pois tinha muitas canções e danças.

Ao intervalo, quando as luzes se acendiam, a minha avó dava-me rebuçados, e voltava a tapar-me debaixo do casaco escuro. Naquele momento não gostei de ser criança!

–   E como foi à saída?

–   À saída, o meu coraçãozinho batia como se fosse um cavalo numa corrida, mas, como não havia empregado, a minha avó não me apertou tanto, por isso, eu conseguia ver sapatos de todos os tipos e tamanhos a andar à minha frente e ao meu lado, a fazerem barulho como se fosse um exército.

Quando saí do esconderijo, elas estavam contentes, mas eu tinha o meu coração triste, apesar de ter voltado a ser livre.

E agora é a tua vez, Bela. Conta-me!

(continua)

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