Histórias de Fantoches – A Gabriela, 3.ª Página

A Gabriela

 

–  Eu conto-te, Bela! A minha avó Madalena andava sempre muito atarefada: a preparar refeições com um cheirinho que fazia crescer água na boca; a arrumar e a limpar a casa; a lavar e a engomar a roupa; a cuidar da família, que era muito grande, e ainda do seu lindo jardim, vedado por um muro de canas, com um portão, que tinha uma fechadura de arame muito difícil de abrir, cheio de flores coloridas como um arco-íris, e perfumadas como não há nada igual.

–  Esse jardim devia ser muito bonito, Gabriela!

–  Era lindo! Parecia de um conto de fadas! Quando eu a via a tratar das plantas, pedia-lhe para me deixar ajudá-la. Então a minha avó punha água no regador vermelho, e eu dava-lhes de beber, lavava-lhes as folhas com as mãos, e falava baixinho com elas, mas ninguém sabia deste nosso segredo!

Também cheirava todas as flores, por isso, às vezes, ficava tonta e com o nariz pintado de pólen, e o meu primo António e o tio Mingo, que é quase da nossa idade, riam-se de mim, mas eu continuava no meu trabalho com os olhos fixos naquelas cores todas; até parecia que as flores sorriam e faziam caretas para eu não ficar triste.

Quando terminava, dizia sempre que quando fosse grande queria ser jardineira, e a minha avó respondia-me que era uma linda profissão, mas que eu tinha de aprender muitas coisas acerca das plantas.

De vez em quando, ela oferecia-me flores: bem-me-queres, brincos de princesa, dálias, ou cravos, para eu pôr no meu chapéu de palha, preso à fita branca com passarinhos, que eu julgava que à noite se deitavam no laço, e de dia andavam de escorrega nas pontas caídas!

– Estás a sorrir, porquê, Bela?

– Porque gostava de ser um dos passarinhos da tua fita!

–  Mas… tu és uma menina ainda mais bonita! Gostas de flores? E de apanhá-las no caminho ou no campo para oferecer a alguém especial?

– Gosto muito de flores, Gabriela! São todas lindas! Quando eu era pequenina corria pelo campo, e apanhava uma florinha aqui, outra ali, e oferecia à minha mãe. E ainda lhe dou, e às pessoas de quem gosto, e também quando vejo alguém triste.

Mas, gosto mais de falar com as estrelas, e rio-me quando elas fazem corridas, e fogem!

– Eu também gosto das estrelas! De vê-las a piscar o olho para a Terra. E usas chapéu como eu, lenço ou boné para protecção dos raios solares?

– Uso, pois! Mas, quando era mais pequenina, a minha mãe gostava muito de pôr-me um lencinho na cabeça e atá-lo cá atrás! Toda a gente dizia que eu ficava muito bonita! A minha madrinha achava que os meus olhos de esmeralda  pareciam maiores e brilhavam mais.

O meu pai e os meus irmãos é que usam boné! E o teu pai e o Rafael?

(continua)

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