Gente Boa da Minha Aldeia – O Lenço Preto da D. Vina

Quilha de Barco-reflexos, 2012

Recordo-me da D. Vina desde sempre! Era vizinha da minha avó; mais tarde, viria morar para mais perto da minha casa – no Alentejo não há distâncias; é tudo: “logo ali!” – , entre a estrada de alcatrão e a avenida do mar, num amplo espaço onde podia plantar produtos na terra para depois vender.

Na minha memória permanece a sua imagem: rosto redondo e pele lisa, branca, contrastando com o seu lenço preto com as pontas presas acima da testa, e o bico de trás largo, bem marcado como se tivesse sido engomado; estatura média, anca larga, seios fartos, descaídos de tanto amamentar; passo miúdo e firme; agrado no triste trato!

Via-a quase sempre vestida de andorinha, chorando despedidas dos filhos, que partiram deste mundo muito cedo, mesmo o que já era um homem feito, de poucas falas, um pedreiro de mãos hábeis, bom filho e bom pai, o seu conforto, o seu amigo!

Via-a jogar a mão às algibeiras do avental preto, tirando as notas para pagar os bens necessários, e a saúde pública quando o valor das vinhetas era simbólico – dizia-se, em sussurros, que no meio da sua pobreza amealhava dinheiro no banco!

Via-a responder silenciosa, e em retirada ao seu impulsivo, agressivo e carrancudo marido!

Via-a argumentar calma e inteligentemente os seus direitos, e defender os seus pontos de vista!

Via-a sorrir com os seus dentes pequeninos tão poucas vezes quantas ela ter-se-á sentado para desfrutar de um momento de lazer!

Via-a tirar o lenço branco para alimentá-lo das suas lágrimas!

Perdia-a de vista nem sei durante quanto tempo!

Um dia…

Reencontrámo-nos!

O meu sorriso perdeu-se na imensidão dos seus olhos tristes!

Via-a lúcida e saudável entregue a uma instituição!

Via-a cautelosa a citar as condições de que dispunha para regressar ao seu lar!

Via-a vestida de luto pela vida que lhe fora roubada!

Via-a mergulhada na sua muda e estática revolta, entregando-se à morte!

Via-a desejosa de substituir o lenço preto por outro mais claro, talvez cinzento, para aliviar a sua dor!

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