Gente Boa da Minha Aldeia – A Vizinha Maêta

Quilha de Barco-reflexos, 2012

A vizinha Maêta, uma senhora de lindos cabelos pretos, de pele lisa e lustrosa, de princesa, de olhos de mel sintonizados com a sua voz florida de sorrisos, abraçava o mundo por detrás do balcão da sua pequena papelaria com pequenas prateleiras cheias de coisas lindas, e muito úteis, se bem que o mais interessante fossem os cromos que não estavam à vista, mas que reservava para alguns clientes especiais, de palmo e meio – alguns nem isso – e os balões!

A pequena papelaria da vizinha Maêta era quase um grande centro comercial! Imaginem que até tinha estacionados na pequena montra: carrinhos, motas,  pistas com comboios, naves e tudo… –  tinha  tudo, sim!

Querem saber o que  quero dizer com… tudo? Tudo também era: canetas de aparo – com tinta “permanente” à parte: em frasco ou em cargas -, lápis de verdade, daqueles que perfumam as narinas a madeira, muitos de cor, as bolas e as luzinhas de Natal, as peças de artesanato, os barquinhos, as braçadeiras, as bóias, os colchões de praia, as bolas aos gomos, os baldes com pás, os sachinhos e as formas…

E… revistas de Fadas do Lar – de bordar, de tricotar, de fazer croché e todo o tipo de roupa – e de informação variada: Crónica Feminina e Plateia, expostas à porta, presas com molas de roupa, das de madeira, lindas e resistentes, que iam ficando bronzeadas como sol; os fascículos de cursos de fotografia e outros, por encomenda;  os ganchos, pretos e castanhos, as travessas e os travessões para o cabelo; os fatos, as máscaras, as cabeleiras, os óculos, as fitas carnaval, e tudo a ele inerente; os livros e as coisas úteis e interessantes, normalmente na salinha contígua, também ela exígua, mas… onde talvez coubessem três  clientes. 

O que a pequena papelaria da vizinha Maêta não tinha era… comida, mas… ela alimentava-nos com o seu incansável acolhimento, pedindo licença ao marido para chegar aqui ou ali, subir o banco ou o pequeno escadote, aceitar a sua ajuda… Para que precisaríamos que a vizinha Mariêta nos oferecesse bolinhos ou outras guloseimas, se na frente havia uma simpática e farta mercearia, e ao lado desta um fresco lugar de frutas?!…

Um dia, encontrei a irmã da vizinha Maêta, e manifestei-lhe a minha intenção de visitá-la, pois  não a via há muito, e a estima e gratidão cresciam em saudades. Pedi-lhe a confirmação do número da porta, a poucos passos dali, o  que a mãe da Mada acatou com alegria, mas… estava à pressa, e não voltei para trás! Não fiz bem! Aquele era o momento! Ainda poderei visitá-la, mas num estabecimento de cuidados de saúde, e… falarei, mas… não terei o prazer de ouvi-la falar comigo!

Bem-haja, vizinha Maêta, uma amiga de todos nós, um monumento com rosto, com voz, com gestos, com sorrisos e com palavras, alindando as páginas da história das nossas vidas!

2 Respostas

  1. Terno!

    • A ternura da partilha, enriquecendo a vida!
      Muito obrigada pelo comentário!
      Beijinhos!

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