A Menina Azul e a Primeira Prova

Menina Azul by lusografias

No edifício grande da minha aldeia, legado para fins sociais por um estrangeiro enamorado por ela, havia duas salas de aula: a feminina e a masculina, ambas de frente para os canteiros do jardim sem árvores, para não roubarem a vista sobre a baía.

A primeira classe da Menina Azul decorria serena e rica de experiências entre meninas de outras idades, tamanhos e classes, e a Sr.ª Professora com estatura, ternura e voz de menina, mas cheia de saber do tamanho do céu, da cor dos seus olhos!

Naquele dia, a Sr.ª Professora anunciou que, dentro de poucos dias, iria ser feita a primeira prova, e que cada aluna tinha de trazer a respetiva folha, que a Menina Azul já vira: grande e bonita com espaçadas linhas azuis, à qual se fazia uma dobra lateral como se fosse um cartão de visita ou um nó de gravata para a sabedoria se apresentar bem bonita!

A Menina Azul ficou exuberante! Nem esperou pelas amigas para regressarem juntas para o bairro onde moravam, sobranceiro ao mar.

Despediu-se rapidamente e começou a correr.

Correu, correu na ágil leveza do seu corpo. Correu sem parar até chegar casa.

A mãe não estava! O pai também não!

Olhou à volta e não viu a alcofa da roupa.

Sorriu e tomou uma decisão: ir à procura da mãe à poça ou ao rio, que ficava mais longe, onde costumava lavar a roupa!

Ia apressada, olhando à volta, na sua pioneira aventura!

O seu coração batia acelerado, produzindo ecos expectantes: a mãe, tão rigorosa em gastos e em tudo, iria dar-lhe o dinheiro para comprar a folha para a prova?!… E quando a visse à sua frente sozinha e sem a sua autorização?!..
Mas… a ideia de fazer prova superou a sua medrosa incerteza.

Descalçou os sapatos, tirou as meias, e começou a correr, sentindo a brisa no rosto, escorregando nos seus lisos e brilhantes cabelos como uma carícia motivadora!

Quando chegou perto da poça, a mãe, que estava ajoelhada, e debruçada sobre uma pedra, esfregando a camisa do pai, a de xadrez, “de levar para o mar”, levantou o rosto escondido num chapéu amarelo pálido, e olhou-a de rosto contraído, repreendendo-a silenciosa e surpreendida! – as duas vizinhas  lavadeiras pareciam solidárias.

A Menina Azul estava vermelha e aflita! Nem conseguia falar! Mas… antes que a mãe soltasse alguma palavra áspera, disse ofegante:

– Preciso de uns tostões para comprar o papel para a prova, que vamos fazer. A mãe dá o dinheiro?!…

A mãe largou a camisa, deu uma gargalhada, e respondeu-lhe que sim, claro! – as vizinhas sorriam, cúmplices.

A Menina Azul agradeceu-lhe com sorrisos doces, e palavras cor-de-rosa.

E… ficou a apanhar flores, e a sonhar com as suas letrinhas a percorrerem as linhas da prova, enquanto esperava pela mãe, mas… sabia que a conversa ainda não tinha acabado, por causa da sua iniciativa.

There are no comments on this post.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: