A Menina Azul – O “Barquinho” de Recordações e o Sr. Sris

Siba na Onda, 2014

Domingo de manhã, a voz rouca e agressiva do mar atraiu-me!

Desci as escadinhas da praia  prisioneiras dos novos muros metálicos e frios!

As árvores esguias e nuas ocupavam, curvadas e tristes, a casa das ancestrais guardadoras de segredos dos namorados e das crianças assustadas, temendo as picadelas do peixe-aranha.

As ondas escuras e violentas esticavam os braços gigantes pela areia, tentando tocar o muro.

Um homem de calções de banho azuis corria pela praia, certamente sentindo aquecer o corpo com as palmadas do vento.

A natureza presenteou-me com um “barquinho” de choco, como designava em criança, deitado de costas na areia.

Sorri saudosa!

Toquei-lhe, voltei-o,  e… decidi devolvê-lo ao mar!

Uma onda vestida de cão ofereceu-lhe o dorso para a viagem!

E… a siba – “barquinho”/ concha /osso – do choco abriu os olhos, moveu os gratos lábios, e dispos-se a navegar.

Perdi-o de vista nos novelos das ondas.

Continuei o meu passeio à beira-mar.

Perto da lota, assistindo ao baloiço das embarcações, um Sr. baixo, de fato de macaco azul, análogo à antiga farda de funcionário municipal, de boné de xadrez, sentia o frio da seca da pesca no pequeno bigode, olhando desalentado para a quietude das duas canas de pesca fixas na areia.

Parei e cumprimentei-o. Retribuiu agradado.

Apressou-se a salientar a insegurança do meu percurso, citando um exemplo de uma cena a que assistira, e que envolvia duas jovens grávidas, lamentando não ter conseguido satisfazer o ensejo que teve na altura de dar uma “abada de porrada àquele malandro”.

Identificando-se como “criado no campo”, especificando onde, falou sobre a saudável partilha da vizinhança, recordando um Natal em que fora à pesca da linha, e levara um balde cheio de peixe, que foi assado na rua, e que toda a gente ficou satisfeita – “Uma festa!” -, bem como nas melancias, e outros produtos da terra repartidos por quem não tinha!

O Sr. Sris, uma daquelas pessoas que na minha aldeia se saúda na rua, e se lamenta quando a  desgraça lhes toca à porta, o que sucedeu quando um filho foi vítima de um acidente, enterneceu-me pelos justos e intermináveis elogios à  sua senhora – irmã de uma amiga da minha mãe -, tendo concluído que o melhor era ir para casa, porque ainda comeriam juntos a deliciosa caldeirada de bacalhau que ela preparara.

Abandonámos a praia juntos!

Subimos a ladeira, tecendo saudades à nossa aldeia mutilada!

Parei para cumprimentar uma prima, que também se dirigiu ao Sr. pescador de horas vagas, a quem ele disse:

– “Achi” esta senhora na praia!

A  Isa sorriu e respondeu-lhe, sorrindo:

– Que belo achado!

Antes de nos despedirmos, e de ter enviado cumprimentos para a esposa, o Sr. Sris ainda me perguntou qual era o meu nome, pois já não se recordava!

E… regressei a casa, cogitando na viagem  do “barquinho”, regressando a memórias de gaivota nas escadas do tempo, acenando ao meu paizinho!

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