A Julinha e o Vestido Florido

Menina Ajoelhada by lusografias

A Julinha tinha combinado encontrar-se com o Julião naquela tarde para estudarem português, mas ele ficara de ligar-lhe a fim de confirmar a hora, pois ia almoçar e tinha explicação com um velho amigo da família ligado ao exército, que gostava muito de conversar sobre poesia, nomeadamente de mostrar-lhe os poemas da sua autoria, e solicitar-lhe a sua opinião.

Antes das três horas, já a Julinha olhava impaciente para o relógio.
Depois, sentou-se no sofá, tirou da mala o livro que o Nito lhe oferecera, tecendo elogios a alguns contos e à audaz escritora, e começou a ler.

De vez me quando, olhava expectante para o seu telemóvel, que continuava silencioso, e para o seu vestido florido, que ora lhe ficava largo, ora apertado e agora até lhe assentava como uma luva!

E… a Julinha lia, lia!

E… cogitava:

– O Julião já não aparece! Educadinho como é, ainda me liga, mas só para pedir desculpa!

Cansada de esperar, e já com mais de oitenta páginas lidas, metade do livro, começou a sentir moleza das pálpebras e um ligeiro frio nos pés, que tapou com a almofada mais fofa do sofá.
Adormeceu!
Sonhou!
Estremeceu quando o telemóvel tocou!

Era o Julião com uma voz muito bem fresca, cumprimentando-a:

– Olá, menina Julinha!

Sorriu e respondeu-lhe:

– Olá, menino Julião!

Mas, sucedeu o que a Julinha antevira: não dava para se encontrarem!
Já era hora do chá das cinco.
Ele estava a sair da casa do amigo numa ponta da cidade.
Ela no seu domicílio, na outra ponta.

O Julião ainda lhe perguntou:
– E amanhã?

Mas ela tinha compromissos!

E continuou:

–  Falamos à noite?

E ela, ensonada, triste e antevendo a sua indisponibilidade por questões familiares, respondeu-lhe:

– Hoje talvez não possa!

O Julião ficou pasmo com tanta negação!
Triste até!
Mudo!
Nem lhe retribuiu o beijo de despedida, que ela disse desejar que fosse um: “Até logo!”

A Julinha voltou a olhar para o vestido florido de fundo branco como os bibes que a sua mãe confecionava e bordava, e cogitou, incrédula,  e sem o seu sorriso habitual e a graciosidade que a frase esboçaria:

– A culpa é do vestido! Cada vez que penso que vou pavonear-me com ele, há desencontros!
Mas… amanhã tento novamente!

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