A Menina Azul – Memórias de um Candeeiro a Petróleo

Candeeiro a Petróleo by lusografias

O candeeiro a petróleo leva o dia a bocejar, suspirando pelo calor da chama do fósforo na sua língua, a que os antigos chamavam “torcida”, para poder iluminar a casa, o que nas últimas décadas só acontece quando a energia elétrica se sente mal e… vai-se a baixo!

Também não gosta muito de estar naquele cantinho da despensa, porque entende que ter passado do seu distinto lugar à mesa para uma prateleira é uma grande despromoção e desrespeito pelos seus anos de luz, apesar de poder olhar para quem entra e sai da casa, e se movimenta na cozinha.

O candeeiro a petróleo tem muito má relação com as suas vizinhas lâmpadas, que considera umas vaidosas, e inúteis, porque as suas chaminés não têm chapéu de abas recortadas, e os seus pés são muito enroscados, nada que se pareça com a porcelana florida que o sustenta!

Mas… tem grandes conversas com o seu primo, mais novo do que ele, o candeeiro de vidro, muito alto e distinto.

No dia em que o pacote de farinha Amparo entrou na despensa, o candeeiro a petróleo não o recebeu bem, porque lhe ocorreram as memórias da farinha torrada, há muito esquecida, lambuzando os lábios da pequenada, da farinha Maizena com gema de ovo, das migas de pão duro, aromatizadas pelo azeite e pelo alho, da garrafa de aguardente para fazer mezinhas com mel, dos jantarinhos de feijão com arroz, seguidos de jogos de cartas, em que uns sorriam vitoriosos, e outros protestavam, chamando-lhes batoteiros, das histórias que o dono da casa, corajoso soldado da Grande Guerra contava aos filhos e à neta – a “minha passarinha” como lhe chamava -, das lutas das mocinhas para cortarem as tranças, das divertidas partidas das misteriosas mascardas que durante anos os visitaram.

Mas… o que emocionava mais o candeeiro a petróleo, e o embaçava, era a grata recordação do dia em que a sua dona de toda a vida o depositara nas mãos da sua neta, e o encontro de alegria partilhada nos acolhedores olhos de mel humedecidos com os de incomparável azul celestial da avó, e no cintilar de memórias da menina, vendo refletidas nele as imagens da sua viagem, abrindo os livros da escola, os que ia buscar à biblioteca itinerante, os que lhe ofereciam em dias de festa, as escritas e as contas, e as danças douradas de sonhos que a luz triangular traçava no silêncio da noite no seu candeeiro transparente e florido.

Anúncios

There are no comments on this post.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: