O Candeeiro Prisioneiro

Candeeiro prisioneiro by lusografias

O candeeiro Flecha gostava muito de viver na Rua da Alegria, de acordar e olhar para o mar, de deixar-se baloiçar com os barcos da sua baía, de namorar à janela com a vela do casal apaixonado, de falar com a vizinhança: com o cão do Sr. Fiel; com a gata da D. Assanhada; com o papagaio da menina Tagarela; com a periquita do Sr. Calado; com a aranha da D. Enrolada; com a andorinha Cantora; com a gaivota Amiga e com todos os animais que passeavam e passavam todos os dias debaixo e por cima do seu olho, e  também de ouvir as conversas dos humanos, se bem que não entendesse nada, a não ser o significado de alguns gestos e a linguagem dos sorrisos.

Na primavera, o candeeiro Flecha começou a reparar na menina hera Vermelha-Amarela, que a pouco e pouco ia ficando mais crescida e formosa, aproximando-se cada vez mais dele!

Numa noite em que o candeeiro Flecha fechara momentaneamente a pálpebra para saborear as carícias da lua, ouviu o frufru  sedoso do vestido verde da hera, e sentiu a frescura doce das suas folhas abraçando-o.

O candeeiro Flecha não resistiu aos encantos quentes e sussurrantes da hera Vermelha-Amarela, beijou-a com a ferocidade de um leão faminto, e permaneceram abraçados dia e noite, noite e dia!

A hera Vermelha-Amarela, que era muito entendida em literatura de histórias de amor com finais felizes, chamou-lhe príncipe, e disse-lhe que queria ficar com ele para sempre, ao que o candeeiro Flecha respondeu:

– Quero muito, minha princesa! Serás a Rainha Hera Vermelha-Amarela Flecha Iluminada!

No dia seguinte, o candeeiro Flecha pôs anúncios luminosos na Rua da Alegria e nas outras ruas da cidade sobre o seu enlace com a princesa Hera Iluminada!

Mas… a princesa que o candeeiro Flecha tornara rainha crescia, crescia, acariciava, acariciava, abraçava, abraçava que quase o sufocava, e… ele já pouco falava!

Um dia, a vizinha do lado, uma Sr.ª muito simpática, a D. Asseada, que gostava muito de lavar roupa, colocou um estendal ao lado do candeeiro Flecha, tirando-lhe a vista, principalmente quando o enchia de roupa!

A Rainha Hera Vermelha-Amarela Flecha Iluminada, muito criativa e atrevida, aplaudiu a ideia, sugerindo que aproveitassem a roupa estendida, nomeadamente os lençóis e fizessem uma tenda para se aconchegarem e embalarem os seus frutinhos!

O candeeiro Rei Flecha achou uma boa ideia e puseram mãos à obra, mas… deixou de ver o mar, os barcos na baía, a vela do casal apaixonado,  a lua e de falar com todos os seus amigos!

Então, o vento, que vira a luz do candeeiro Flecha embaciada de tristeza, desmanchou a tenda, sentou a rainha no trono e devolveu a liberdade ao seu amigo!

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