A Menina Azul – O Circo

O vento trazia a voz rouca, apressada e ansiosamente esperada do anúncio da festa, antes de se avistar o carro iluminado com a insígnia do circo, e da leitura imaginária e hipnótica dos cartazes.

A entrada para os espectadores de palmo e meio podia ser gratuita, mas muitos pagavam os seus próprios bilhetes antecipadamente com colheradas de comida engolidas sem apetite, com bons comportamentos indesejados, mas oportunamente necessários…

As “roulottes” encantadas, as jaulas robustas, os carros cansados de transporte de animais, a azáfama ininterrupta dos empregados, a elevação da tenda com a sua cúpula – “chapiteau”- decorada com luzes apelativas e freneticamente cintilantes, faziam antever:

– a pista;

– as bancadas;

– os músicos com os seus fatos vermelhos de galões e botões dourados;

– o apresentador enérgico e palrador; as exibições emocionantes dos acrobatas;

– os perigosos, suspensos e silenciosos voos e saltos mortais dos trapezistas;

– os temerários domadores de feras obedientes, que mostravam os dentes ao som do chicote;

– os ginastas de corpo elástico e flexível;

– os mágicos que faziam aparecer e desaparecer coelhos, pombas, lenços e faziam nascer moedas das orelhas e dos narizes dos espectadores mais próximos;

– os malabaristas, exibindo arcos e esferas;

– os macaquinhos ciclistas;

– os cavalos inteligentes e habilidosos, ao compasso da música, e os cavaleiros heróis;

– os elefantes possantes e ginastas;

– os esperados palhaços de vestimentas fantásticas, garridas, desmedidas, de sapatos de gigante pobre, de rosto de cal, de enormes narizes vermelhos e esborrachados, de bocas de peixe, que faziam rir com os gestos e com palavras, mas pareciam magoar-se nos pregos, nas trampolins, nas cambalhotas…;

– os doces, as fotografias e as recordações que uma bonita e elegante artista / vendedora “oferecia” num tabuleiro que pendia do seu pescoço…;

– os aplausos antecedidos de choros de crianças sensíveis e de gritinhos de senhoras “frágeis”;

– o doloroso desfile final, as pirâmides coloridas de animais, artistas, misturado com o brilho encandeante de lantelojas, entre sorrisos e gestos de despedida e de agradecimento de todos os protagonistas do espectáculo, suscitando vontade de permanecer ali ou voltar na sessão seguinte…

Um dia, quando já não era menina, voltei ao circo, e uma criança que crescia dentro de mim iniciou o seu prazer por este espectáculo, dancando incansável e alegremente ao som do órgão a tracção principal, instrumento que deliciosa e habilmente tocaria um dia!…

Ilustro esta memória com uma foto em que um dos palhaçinhos, irmão daquela criança, também um menino lindo, levá-lo-ia a redigir:

– “O dia mais feliz da minha vida foi o dia em que o meu irmão nasceu!”

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