O Saltinho da Bota

Sorriso

A D. Bota Castanha, de bico empinado e aguçado, enfiou o seu fino e longo saltinho num pequeno orifício do terraço flutuante, enquanto piscava o olho ao brilhante sapato preto do Sr. Dr. e este se desfazia em sorrisos para a sua fascinante dona, entre umas fumaças que provocavam tosse ao cabelo arrepiado.

Presa ao chão, a Sr.ª D. pediu ajuda para soltar o saltinho da prisão, onde este acabaria por ficar, desmembrando-se da sola da D. Bota.

– Parti o salto, parti o salto – retorquia a Sr.ª D. exibindo-o na mão.

– Arranque o outro, para não cair. – sugeriu uma Sr.ª

Mas a Sr.ª D. preferiu andar de bico-de-pé, enquanto decorria o evento.

Ao terminar, um médico quis ser sapateiro, e uma técnica sua ajudante e tentavam encaixar o saltinho na D. Bota Castanha, encontrando-se a Sr.ª D. muito bem refastelada numa cadeira rodeada de aios curiosos e divertidos.

– Tragam um martelo! – pediu alguém!

– É melhor super cola três, porque com os pregos, fica seguro! – afirmou a ajudante.

E o médico, que queria ser sapateiro, de rabo para o ar, começou a operação, dando umas marteladas no saltinho, que se encolhia assustado!

– Preciso de um alicate! – pediu o médico!

E um Sr. simpático trouxe as ferramentas.

– Mas o que é isto?- perguntou o Sr. Dr. cheiroso a tabaco. O colega está a pôr alguma ferradura?! A Sr.ª D. desculpe, mas é o que parece!

Esta gracinha caiu no silêncio humano, e a D. Bota Castanha, ofendida, corou de raiva e de desejo de dar-lhe uma biqueirada, mas o médico amigo estava na sua frente, por isso só pôde deitar o bico de fora ao sapato preto e fazer caretas ao Sr. Dr.

Terminada com sucesso a intervenção da gentileza e da boa vontade, a D. Bota airosamente “saltada” saiu satisfeita e agradecida, mas determinou que era melhor utilizar o elevador.

Quando chegou à rua, a Sr.ª D., observadora e escolhendo o piso para que o saltinho não caisse novamente na tentação de meter-se nalgum buraquinho, exclamou vivamente surpreendida:

– Oh! É o brinco da…!

Debruçou-se e pegou num enorme brinco dourado e verde. Satisfeita com o achado, riu-se, dizendo que o iria entregar à triste dama que o perdera.

Uns metros mais à frente, exibiu com entusiasmo a “jóia”, mostrando-a ao Sr. Dr. e à amiga, esquecendo-se do seu saltinho enfermo e, num desequilíbrio, retorquiu aflita:

– Já perdi o meu salto outra vez!

Olhou para trás e foi resgatá-lo do alcatrão, coxeando.

E a companheira de viagem consolou-a, dizendo-lhe divertida:

– Deixe lá, perdeu o salto, mas achou o brinco!

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