A Menina Azul – O Jovem Lavrador

09/11/23

Entrou um jovem no meu gabinete, depois de pedir licença, e começou a limpar os vidros das amplas janelas amarelas, advertindo-me de que não necessitaria de levantar-me, porque poderíamos estar ambos a trabalhar ao mesmo tempo.

Absorta na minha actividade, nem reparara no seu rosto, mas a sua rapidez e eficiência não me passaram despercebidas e dirigi-lhe um justo elogio.

Observadora e graciosa, uma jovem esbelta, de rosto cândido e luminoso, olhos claros e cabelo solto com muitos caracóis, que ia a sair em serviço, perguntou-lhe:

– Não quer ir para a minha casa?

– Para trabalhar? Oh! – respondeu-lhe o rapaz serena, respeitosa e indiferentemente.

– Claro, para trabalhar! – respondeu-lhe a sua interlocutora com um lindo sorriso!

– Para trabalhar, tenho a minha casa onde faço tudo sozinho: limpo, lavo, passo, trato do campo à volta; é uma vivenda, tenho muito que fazer.

– E não tem ninguém com quem partilhar as tarefas? – insistiu a jovem.

– Não, mas às vezes é melhor estar só do que mal acompanhado.

Quando deixou os vidros a brilhar, colocou-se na minha frente e, colado ao chão, narrou a sua actividade semanal de lavrador:

– Cuido da vinha, das laranjeiras, tenho umas batatas semeadas, alfaces e coisas assim! Devia ver, nem deixo crescer uma erva. Pego num tractorzinho que lá tenho e lavro tudo, mas quando comprei aquilo, havia ervas do meu tamanho.

E vende alguma coisinha? – perguntei-lhe.

– Não vendo nada, dou. As minhas laranjas são mel, nem sei onde arranjei aquilo, e as minhas vizinhas, que também têm laranjeiras, vêm apanhar das minhas, mas eu não me importo, até gosto de repartir.

– Não é frequente encontrar um jovem assim! – salientou a Teté, precioso elemento da minha equipa.

– Olhe, no caminho um colega perguntou-me como é que eu juntava dinheiro para ter tudo isto, e eu respondi-lhe que, enquanto ele andava a divertir-se todas as noites e a gastar dinheiro, eu ficava na minha sala, sentado no sofá a ver televisão. Mas eu preciso é de trabalho, esse é que não pode faltar e, quando chegar, largo este e pego noutro – prosseguiu o jovem, que não tinha tempo para barbear-se.

– E um docinho de laranja? Seria bom ter alguém que o fizesse com gosto e apreciasse essa sua actividades de lavrador – insisti.

O jovem sorriu e continuou:

– Eu sou mais do campo, eu gosto do campo, e a minha mãe, que é do Alentejo e o meu pai de Paredes de Coura, também gostam! Estiveram lá no fim-de-semana! Mas o pior são as contribuições, porque eu comprei aquilo barato – continuou o jovem, referindo o contexto e o valor da compra, a qual o mediador da imobiliária propôs duplicar, caso lha quisesse vender.

– Mas morar numa vivenda tem vantagens, porque não se incomoda, nem se é incomodado! – adiantei.

– É verdade, e não se paga condomínio, e aquilo tinha uma adega e tudo. Mas está-se sempre a gastar dinheiro, porque isto ou aquilo não está bem, arranja-se. Olhe, acabei a cozinha, ficou rústica, procurei juntar os dois estilos das zonas dos meus pais, está bonita, eu gosto!

– Mas investe e vê frutos do seu trabalho! Parabéns! – incentivei-o.

À despedida, que o jovem parecia não desejar, felicitei-o por ser grande, não me referindo à sua enorme estatura e desejei-lhe as maiores felicidades, as quais me retribuiu.

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