A Menina Azul – Uma Corrida na Cidade

A paragem de táxis estava fora de serviço, sem espaço para estacionamento, totalmente ocupada por veículos de residentes desesperados por não poderem dobrar o carrinho e pô-lo na varanda ou num cantinho da sala, quiça de trabalhadores, mas a contagiante serenidade do Tejo pairava no meu olhar, indiferente à desorganização urbana.

No outro lado da rua, sobre o largo passeio, uma senhora ainda jovem esperava impacientemente por algo. Depois, abeirou-se de mim e protestou contra aquela situação, que as três patrulhas da polícia que circularam à nossa frente ignoraram.

Concordámos que o passeio onde se encontrava era o ponto estratégico para que um taxista se apercebesse da nossa presença e respondesse ao nosso sinal e mudámos de direcção.

Quando avistámos um táxi livre, a simpática senhora perguntou-me para onde ia e, por que a Av.ª Fontes Pereira de Melo ficava no caminho para a 5 de Outubro, concordámos partilhar o veículo e a despesa.

Apaixonadas pela cidade, elogiámo-la, apreciando o discernimento empreendedor do Marquês, reconstrutor de uma cidade em ruínas, visionário futurista, que proporcioniu o escoamento de trânsito de que todos, grata ou indiferentemente usufruímos na actualidade, lamentando, simultaneamente, a perspectiva restrita dos políticos do nosso tempo, cuja medida de empreendimento é insuficiente para hoje.

A cultura patrimonial, associada à derrocada arquitectónica e à queda agonizante de edifícios seculares patentes em todo o país, testemunhos da história nacional, e o projecto de divulgação destes, que um amigo fotografa e ilustra com os factos – de ordem pessoal, social e política – que estão subjacentes a este estado de degradação, e que procura um patrocinador, também foi tema da nossa conversa.

Despedimo-nos com simpatia e sorriso recíprocos na primeira paragem com a determinação da minha companheira de viagem de que seria ela a pagar a corrida, sob proposta de caber-me fazê-lo quando nos reencontrássemos no mesmo contexto. Agradeci-lhe e selei o acordo.

Atravessei a avenida no meio da vozearia veloz e ensurdecedora da cidade e o meu pensamento voou para outra dimensão, antevendo que para a próxima viagem em que voltaremos a estar juntas não necessitaríamos de utilizar meios de transporte desta natureza.

Anúncios

There are no comments on this post.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: