Dedicatória e Dedicação – 3.ª Página

A descoberta da originalidade da cultura da vila piscatória encantou a B(…):

– a imensidão do mar tentador na sua serenidade e tenebroso na sua fúria;

– a beleza da baía colorida de dia e iluminada de luar à noite;

– a identificação dos prenúncios do mau tempo – o anúncio das gaivotas, o ventinho que soprava, as nuvens ditosas no céu…;

– a ida das mulheres às fontes, sobretudo as equilibristas de infusas “enfusas”- de barro à cabeça apoiadas sobre “sogras” – tecido enrolado, em forma de círculo -, não subestimando a elegância das que as prendiam nas ancas de mulheres-mães;

– a gastronomia: os frutos do mar confeccionados com mestria; o pão alentejano estaladiço; os doces que faziam crescer água na boca;

– a alegria das festas: as procissões à Nossa Senhora Protectora dos Pescadores – pretexto para o seu baptismo no mar; as feiras, de Agosto e de Outubro; os mastros espalhados pelos bairros em homenagem aos santos populares – colaborava na sua preparação; o imperdível carnaval; os concursos de Verão, na praia, e o divertido banho vinte e nove;

– a azáfama da ribeira: barcos a chegar e a partir; o pescado disposto na areia, a sua venda, carregamento em caixas de madeira, à cabeça de homens, sobre os enormes chapéus-de-lata, que alguns seguravam com as duas mãos; as embarcações encalhadas no Inverno;

– a praça ao ar livre – mercado – e a popularidade dos vendedores e dos compradores;

– a assustadora sereia da fábrica do peixe a chamar os seus trabalhadores a qualquer hora;

– a desenvoltura das lavadeiras e a forma como soberba e sabiamente tratavam dos seus rios – tanques naturais;

– a familiaridade da acolhedora vizinhança;

– a cantoria da vizinha de trás, a chamar pelas galinhas – “tica, tica-tica, tica”- e o despertar dos galos madrugadores;

– a magia das milagrosas mezinhas caseiras, particularmente as receitas do meu avô contador de histórias;

– a alegria das amenas e divertidas saídas depois do jantar;

– a delícia dos licores de aromas de fruta diversa, que a “menina Antónia” preparava, presentes nas festas e em todos os momentos de convívio;

– a doçura dos pirolitos da “ti” Bertolina;

– a sua iniciação à natação, empurrada por uma onda.

Tudo isto e, de um modo particular, a relação com os meus pais, que viriam a ser seus compadres, e seus familiares e amigos, atraíram-na e convidavam-na a permanecer na terra encantada, desfrutando do seu convívio em qualquer época do ano, por tempo indeterminado, com o marido, ou esperando ansiosamente as suas visitas aos fins-de-semana.

(continua)

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