O Avô Contador de Histórias – 18.ª Página

O decorrer dos anos foi enfraquecendo a vitalidade do meu avô contador de histórias e limitando a sua mobilidade: a ribeira e a costa do norte deixaram de estar ao alcance das suas pernas; apoiava-se numa tosca bengala nas pequenas deslocações que efectuava; passava a maior parte do dia à porta da sua casa ou perto de uma das janelas, sentado num banquinho de madeira, inalterável na sua comunicação com o mundo, saudando e entabulando conversa com quem passava, desfrutando da companhia da família, dos amigos, vizinhos, que se sentavam ao seu lado, e dos conhecidos que faziam uma pausa no seu percurso.

Pai de quinze filhos, com uma braçada de netos e o regaço cheio de bisnetos, a quem continuava a fazer recomendações e a narrar histórias mais breves do que aquelas com que me embalara e despertara a minha imaginação, preservava a sua alegre e terna lucidez, acolhendo todos com uma espontânea alegria.

Recordo a felicidade estampada no seu rosto quando se encontrava de cama – a mesma onde me deitara a seu lado, berço de inesquecíveis viagens pelo mundo encantado das suas histórias – e, de braços estendidos, pegou e ergueu o meu primeiro filho como um troféu, conversou com ele – “meu passarinho, venha cá ao avô …! – e fê-lo sorrir e palrar … – a derradeira e magnífica imagem que me legou.

O meu avô contador de histórias marca o meu primeiro contacto com a partida de um ente querido. Não me despedi dele, acompanhando-o nas cerimónias fúnebres. Não consegui dizer-lhe adeus! Chorei-o profundamente na minha solidão!

Desde aquele dia de Março, depois do meu aniversário e antes do da minha mãe – neguei memorizar a data, enaltecendo, como sempre fizera, a do seu nascimento, 6 de Janeiro, Dia de Reis, digno de si – que o descubro em todo o que é belo e novo, e imagino com alegria vibrante do meu coração unido ao seu, esboçando sorrisos discretos, as histórias que ele criaria perante as mutações do mundo.

E no meu caminhar vou acreditando, entre o sol que brilha, a nuvem que passa, a brisa que sopra, o mar que se agita, a luz do dia que desponta, que o meu amado avozinho contador de histórias me deixou de herança, entre muitas riquezas, o seu “dedo que adivinha”.

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