O Avô Contador de Histórias – 17.ª Página

À medida que eu ia crescendo, o meu avô revelava-se um sábio:

– as histórias continuavam a soltarem-se da sua imaginação pintadas de todas as cores, atravessando todas as partes e mistérios do mundo, misturando o real com a ficção;

– os truques dos jogos de cartas, passatempo familiar marcado pela alegria, tantas vezes aquecido pela braseira decorada com prata aproveitada de algum chocolate saído esporadicamente num furo, enchiam de magia as figuras dos reis e das damas, e os ensinamentos e as oportunidades para me transformar numa mestra no “burro-em-pé”, treinando a concentração e a destreza manual, eram fantásticos – quando perdia, não batíamos palmas, mas sorríamos e recomeçávamos;

– os brinquedos que ensinava os meus tios e primos mais velhos a construírem: cortar as canas, preparar a cola, dissolvendo a farinha na água e utilizar o cordel na confecção das estrelas – papagaios de papel -, bem como a arte de manuseá-las; os carrinhos onde eles se montavam, apesar de considerá-los perigosos, as bolas feitas de bexigas de porco secas, e tantos outros, fascinavam-me;

– as altas caniçadas que erguia para delimitar a área da habitação, situada no meio de um soberba espaço e, em particular, a mais baixinha que cercava o jardim da minha avó – local misterioso, magicamente colorido e perfumado, onde só me era permitido entrar com autorização prévia – e os respectivos portões de madeira, que dispunha com precisão antes de colocar os pregos com marteladas vigorosas, teciam à sua volta a força protectora;

– as lições que dava a todos sobre: as “maneiras de estar à mesa”; as regras sociais – “falar às pessoas, dizer obrigado e pedir (com) licença”; tirar o chapéu/boina -; as relações interpessoais – darem-se bem e não esconderem nada uns dos outros -; a disciplina da casa – rigorosa e autoritária;

– as receitas que recebera dos antepassados e que passava às outras gerações: aguardente com mel para curar as constipações; cerveja com gema de ovo para tornar os “moços” mais vigorosos; um copinho de vinho à refeição para dar força;

– os presentes que as suas mãos grandes, fortes e docemente acolhedoras me estendiam: as cascas das lapas, que guardava para eu poder fazer colheres com cabos de cana, que um golpinho habilmente saído do seu canivete permitia prender à “concha”, com as quais dava comida às minhas bonecas; o passarinho que caíra do ninho, que eu acariciava e que ele restituía ao seu lar; os primeiros pintainhos a saírem das cascas, amarelinhos e fofos, que eu aquecia nas minhas mãos; as amoras colhidas nos silvados ou a melhor maçã que havia na fruteira…

– os diálogos em francês, que apreendera na guerra, de frases curtas, enfatizando a pronúncia correcta de algumas palavras – “oeuf”, “boeuf” e tantas mais…

(continua)

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