O Avô Contador de Histórias – 15.ª Página

O meu avozinho contador de histórias mantém vivas na memória dos seus filhos recordações sorridentes associadas a épocas festivas:

– o acolhimento das peripécias das janeiras cantadas pelas portas, narradas à volta da braseira e, de uma forma particular, dos agradecimentos, regaços cheios de mantimentos;

– o castigo de uma menina determinada, justa e desobediente, que, não aceitando concessões a uma irmã humilde, mais nova, e negações a si própria, decidiu ir festejar os santos populares a um mastro no centro da vila.
Denunciada inocentemente por um irmão, viu aproximar-se o pai no auge do baile de roda e sentiu a força da sua autoridade ao ser retirada da festa e, especialmente, na tareia que foi levando até chegar a casa – eu ouviria a minha mãe evocar este episódio dizendo, entre gargalhadas e com ar vitorioso: “Levei uma sova, mas fui ao baile”!

– a permissão passiva e divertida de máscaras requintadas e criativamente vestidas, irreconhecíveis, que invadiram o seu domicílio durante anos – a referida menina, já mulher e mãe, com uma jovem cunhada e uma prima desta, da mesma idade.

Divertiam-se acariciando os presentes, mudas e “mortas de festa”, circulando pela casa, retirando algo da cozinha, que reporiam no ano seguinte sob a forma de brincadeira carnavalesca: um chouriço substituído por outro feito de serradura, aproveitando-se a tripa de um porco, em cuja matança o avô participara, e que a avó limpara para serem feitos os enchidos; uma pequena garrafa de aguardente, devolvida com água; um prato com peixe frito, que se partiu quando a tia Lili tropeçou no seu longo vestido à saída e foram denunciadas pelas gargalhadas e, sobretudo, pela voz…

Acompanhei a confecção mágica das suas fantasias com o coraçãozinho a bater de expectativa e a imaginação a crescer num mundo de sonhos, no qual aprendi a guardar silêncio, dividida entre a euforia da descrição das aventuras e as interrogações acerca das atrevidas desconhecidas – prova muito dura, que colocaria acima da proibição de andar aos saltinhos na rua, liberdade que só os homens me permitiam: o meu paizinho e o avô contador de histórias.

(continua)

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