O Avô Contador de Histórias – 13.ª Página

Naquele dia, o meu primo Raul foi à pesca com o pai – o saudoso e bondoso tio Francisco, que todos revêem neste filho.

Estava bom tempo e o mar calmo, mas o bote embateu numa pedra e voltou-se.

O meu primo usou os seus conhecimentos de nadador e conseguiu alcançar uma pedra donde pedia socorro quando avistava um barco.

O meu tio Francisco ficou enrolado nos aparelhos e não conseguiu soltar-se.

O Patrocínio, barco da pesca dos robalos, apercebeu-se do aflitivo pedido daquele menino e salvou-o, levando-o para terra.

Nunca esta família tinha sido atingida por tão grande golpe e jamais conhecera tamanha perda!
Durante onze dias, o meu avô contador de histórias esteve de atalaia, mudo, a olhar para o mar, à espera que ele lhe restituísse o filho querido que lhe roubara.

Ele conhecia a guerra: a morte, os feridos, a fome, a sede, o frio, o cansaço e a dor, vividos na solidão da sua família, dos seus amigos, da sua casa, do seu país; tinha-se despedido para sempre de entes queridos, mas o desaparecimento brutal e inesperado do seu menino-homem corroía-lhe todo o seu ser, profunda e silenciosamente – novo combate, mas sem sono, sem fome, sem sede.

(continua)

Anúncios

There are no comments on this post.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: