O Avô Contador de Histórias – 7.ª Página

A minha avó não me deixava ajudá-la a lavar a roupa – que tristeza! Quanto eu gostaria de chapinhar naquela água toda branquinha de sabão, debruçar-me sobre as pedras, esfregar a roupa, imitando-a.

Enquanto namoriscava uma duna enorme, que só me permitiam subir na companhia do meu tio mais novo e/ou do meu primo António, ou ainda sob o olhar zeloso de um adulto, donde eu avistava a imensidão do mar, e produzia melodias de ahhhhhhhhhhhhh tocando suave e repetidamente na boca com a mão, e pela qual, muitas vezes, me rebolava, pedia-lhe para visitar a “Ti´” Laurinda, a lavadeira do rio mais próximo, maior do que o seu, a norte, onde havia muitas rãs e pairava um cheiro fresco de vegetação rasteira mergulhada nas nascentes – ainda o sinto quando percorro a costa a pé!

A “Ti” Laurinda era uma senhora alta, forte, de rosto risonho e óculos grandes, com os cabelos presos numa peta, mágica curandeira aos meus olhos de criança, farmacêutica de uma famosa pomada para as dores de barriga, – “enterite” – preparada com azeite, e de outras mezinhas, que um dia me provocara involuntariamente um copioso choro, que nem o olhar terno das múltiplas e coloridas flores do seu quintal, pelas quais me apaixonara, o pararam.

Eu ia ao colo de alguém para ela me tratar de um pé que torcera e que inocentemente imaginava que seria com uma massagem das suas poções. Mas a “Ti´” Laurinda dirigiu-se a mim com um novelo de lã e uma agulha, que eu deduzi que seriam para coser o meu pezinho, e foi difícil convencerem-me de que os “pontos” não eram nada mais, nada menos do que passar a agulha pelo novelo, enquanto recitava uma oração!

Quem me diria que esta estimada senhora, mãe do tio Jacinto – parentesco de coração desde tenra idade, alargado aos seus descendentes, primos -, amigo dos meus outros tios, tratar-me-ia por comadre, anos mais tarde, pelo facto de eu ser madrinha do seu primeiro bisneto, e que continuaria a ser vizinha dos meus avós, habitando no mesmo lado da rua, com apenas três casas a separá-los?!…

As Amarelas e a Terra Firme continuam a ser pesqueiros, os avós e a “ti´” Laurinda cumpriram as suas missões na terra, os rios foram soterrados e os seus túmulos floridos com chorões pelas mãos da Natureza, local panorâmico de terra batida onde os seus amantes desfrutam a paisagem orgulhosamente inalterável.

(continua)

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