Estórias de Meninas – A Menina Cor-de-Rosa

Irmãos

A Menina Cor-de-Rosa tinha uma blusa e uma saia cor-de-rosa. Despiu-as, calma e delicadamente, descalçou os seus sapatos cor-de-rosa e pôs os seus pezinhos escondidos numas meias cor-de-rosa sobre o banco castanho do balneário, esticando-se toda para as pendurar.

Ficou só com uma peça íntima, cor-de-rosa, no seu delicado corpinho e começou a tirar as meias, enquanto observava um menino que aparentava ter a sua idade, mas que era muito mais alto e robusto do que ela, cuja mãe o despia e lhe vestia um fato novo – presente da tia no dia do seu aniversário -, fazendo comentários sobre o seu crescimento, sacudindo os seus longos, louros e despenteados cabelos, que lhe tapavam os óculos, colocando-lhe o cinto branco com uma risca amarela, rodopiando-o sem piedade…

A Menina Cor-de-Rosa abriu o seu saco cor-de-rosa, tirou a sua calça branca, visivelmente usada, e vestiu-a, enquanto entrava outra mãe com outro menino, que também tinha um fato novo, mas que a progenitora não trouxera…

A Menina Cor-de-Rosa coçou o sovaco esquerdo, começou a vestir o seu casaco curto, da mesma cor da calça, e sentou-se a assistir à repetição da cena da mãe-filho-dependente, dirigindo-me um doce, discreto e cúmplice sorriso.

Depois procurou os meus olhos e balbuciou:

– Desculpe, pode ajudar-me e dar-me aqui um nó – pediu-me, mostrando-me as pontas dos atilhos existentes no interior do seu casaco branco.

– Com todo o gosto! Tenho estado a observar como és uma linda menina, que sabe cuidar de si sozinha – respondi-lhe com um sorriso de apreço. Mas preciso de dar dois nós, senão o teu casaco vai abrir-se.

A Menina Cor-de-Rosa agradeceu-me e continuou sentada a observar o menino, a quem a mãe espremia a cintura com um cinto.

Debrucei-me sobre o meu saco, tirei o meu pente cor-de-rosa da bolsa e, quando olhei para o lado, apercebei-me de que a Menina Cor-de-Rosa tinha desaparecido rápida e silenciosamente como nos filmes – ido para a sua aula, certamente -, sem termos a oportunidade de oferecermos palavras de várias cores e sabores uma à outra!…

Gostaria de voltar a encontrar-me com a Menina Cor-de-Rosa, para saber qual é a cor verdadeira do seu nome e mostrar-lhe o perfume do meu.

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