Os Ricos Rotos

Dezembro 20, 2009 - Leave a Response

É moda andar roto, comprar calças rotas, bem rotas, de preferência com muitos e grandes buracos, daquelas que exibem os pêlos das pernas dos rapazes, a depilação das raparigas, ou a roupa interior de ambos, num desafio à pobreza de hoje e de outros tempos, quando não havia poder de compra e o vestuário gasto pelo tempo e uso precisava de ser remendado, pretexto de discriminação social.

Paga-se, a preço para ricos, as calças rotas, algumas conjugadas com casacos de marca e gravata, que não são, afinal, sinal de existência de crise, talvez carência de diferenciação, sintoma de dor de cabeça social de quem desconhece a falta dos bens essenciais e se mascara daquilo que, no fundo, é, pobre, mas com abrigo e carteira recheada.

A Magia do Eléctrico

Dezembro 20, 2009 - Leave a Response

O eléctrico, património cultural da cidade, continua a percorrê-la, a enfeitá-la, a servi-la, deslizando…

A sua versão mais modernizada, tentadora para os olhos dos turistas e dos curiosos, cresceu, aprendeu a falar e aperta multidões nos seus braços, mas faltam-lhe os bancos de palhinha e o seu estatuto de “charrette” urbana, apesar da preservação do prazer mágico do seu usufruto.

A Mãe e os seus Bebés

Dezembro 20, 2009 - Leave a Response

Um bebé dorme tranquilo, enquanto o irmão gémeo, louro e de olhos claros, brinca silenciosamente, esboçando sorrisos discretos para a mãe e para a avó e franzindo o sobrolho para a estranha visitante.

Quando acorda, o bebé de cabelos pretos, mais pequeno e roliço, estende as mãozinhas para a mãe, fita-me com os seus olhinhos escuros e penetrantes e acolhe-me com um sorriso enorme, mostrando-me muitos dentinhos.

A mãe pega-lhes ao colo, acarinha-os, coloca-os no seu regaço e amamenta-os, rejubilando de felicidade!

O Canteiro da Isabel

Dezembro 20, 2009 - Leave a Response

A minha amiga Isabel deixo de herança ao mundo um canteiro de flores variadas e perfumadas, que ela plantava e cuidava como ninguém, tal como fazia com os meninos que acompanhou carinhosamente ao longo da sua vida; a mim, em particular, o afecto partilhado, profundo , o “-inha” adicionado ao meu nome, uma caixa de doce de chila – “gila” – donde orgulhosa e cuidadosamente retirei uns fios para rechear um bolo com creme de chocolate, que acredito contribuiu para o seu sucesso no festivo lanche ajantarado, no qual só ambas sabíamos que aquele apreciado paladar era obra das duas – obrigada, Amiga!

Contas de Dividir

Dezembro 20, 2009 - Leave a Response

Pega na romã e dá um bago à tua irmã.

Pega no pão e reparte com o teu irmão.

Pega no agasalho e oferece um retalho.

Pega no leite quente e leva-o a muita gente.

Pega na alegria e distribui companhia.

Pega no sorriso e dá-o com ou sem siso.

Pega no teu ser e começa a viver!

Os Galos Madrugadores

Dezembro 20, 2009 - Leave a Response

As mães, os filhos que moram longe das escolas ou nas grandes cidades, os estudantes ávidos de aprender, os pais que vão para a fábrica, os trabalhadores camarários responsáveis pela recolha do lixo, os pescadores a caminho da faina, os escritores e tantos outros, abandonam cedo o aconchego dos cobertores, são madrugadores.

E os sem abrigo da estação também! Accionados pelos seguranças, rompe a alvorada às seis da manhã e, sem tempo para aquecimento, nem permissão parar esticarem os corpos engelhados, enrolam a trouxa e sentam-se, aprisionados, para enganarem as aparências de uma sociedade pobre de valores, vestida de indiferença.

O Não ao Saber do Outro

Dezembro 8, 2009 - Leave a Response

A insegurança camuflada na prepotência crítica e rejeita o saber do outro, pincelando-o publicamente a seu belo prazer, sem ver o seu próprio rosto transfigurado nas águas agitadas do lago do seu ser, enquanto o outro permanece sereno e intocável, observando-o.

Desgarrada

Dezembro 8, 2009 - Leave a Response

O madrugador e vigoroso galo desafia com a sua voz jovem o velho mar, que lhe responde com o sedutor e sábio canto de sereias numa desgarrada, que ecoa neste belo e recortado cabo banhado pelos feixes luminosos do farol.

As Compras dos Pais

Dezembro 6, 2009 - Leave a Response

Dois Sr.s de meia idade olhavam atentamente para os artigos expostos na loja, aproximavam-se de uns e de outros, curiosos e indecisos, sem ousarem tocar-lhes.

A dada altura, ficaram ao lado um do outro, de frente para as prateleiras dos pijamas.
O Sr. mais alto e forte, com ar mais decidido, pegou num pijama azul com uns alegres pinguins a deslizarem no gelo, e o outro opinou:

- É bonito! Estava a pensar levar um destes para a minha filha mais nova.

- Também eu – respondeu sorridente o Sr. mais alto, observando melhor a peça que segurava. Mas tenho duas filhas.

- Que curioso! Eu também! Uma tem vinte e oito anos, e a mais nova vinte e quatro! – retorquiu o Sr. mais baixo e grisalho.

- As minhas, uma tem vinte e seis e a outra vinte e dois, mas isto anda ela por ela. Vou comprar este para a Lilia, e o das bolinhas para a Lídia, a minha mais velha – continuou o Sr. mais alto.

- E eu vou levar iguais aos seus: o dos pinguins para a Liliana e o das bolinhas amarelas e azuis para a Lígia – afirmou o Sr. grisalho.

- Esta tem graça: os nomes das nossas filhas começam todos por L, mas o meu também, sou Luís, e a minha mulher chama-se Lúcia – acrescentou divertido o Sr. mais alto.

- Veja lá a coincidência, Sr. Luís. Na minha casa, também somos uma família L: eu chamo-me Lino, e a minha esposa Lia – adiantou o Sr. grisalho com um grande sorriso.

- Mas olhe, Sr. Lino, no tamanho só eu é que sou L; o resto da família é M. Já agora, também vou levar aquele pijama das riscas brancas e azuis turquesa para a minha Lúcia, e este dos quadrados vermelhos e azuis escuros para mim. Isto é que são umas prendas muito P. E ainda falta o peru – prosseguiu o Sr. mais decidido.

- O Sr. é engraçado, Sr. Luís! Tem toda a razão! – continuou o Sr. Lino.

- Mas o Sr. Lino não pense que só nos ficamos por estas letras! Então e o A do amor e da alegria, a continuação do P do presépio e da paz, o F da família, e da felicidade, o B do bacalhau e do Banco Alimentar, o M, o J e do G do Menino Jesus e da missa do galo?!… E muitas mais letras do abecedário estarão à nossa mesa e nos nossos corações – destacou alegremente o Sr. mais alto.

- Mas que grande imaginação, Sr. Luís! Está certo! Nós também as convidamos e a maior parte no nosso dia-a-dia! – acrescentou o Sr. Lino!

O Sr. Luís olhou para o relógio, estendeu a mão ao Sr. Lino e desejou-lhe Feliz Natal, votos que o seu interlocutor agradeceu e retribuiu com simpatia.

Frio Agreste na Sé

Novembro 24, 2009 - Leave a Response

A Sé de Lisboa – e quantas outras?!… – tirita ao som da trombeta da solidão desprotegida de homens e de mulheres perdidos no seio de uma sociedade discriminatória, egoísta e materialista, invisíveis para os poderosos, mas com rostos e histórias para os generosos, abrigando-os no tecto do mundo, sob o manto de Santa Maria Maior, misturados com os estilos que avoengos – seus ou anfitriões – edificaram pedra a pedra, também famintos, sofredores, vítimas, e com Santo António cujos sermões ouvidos moucos de outros, ainda mais pobres, não escutam, nem percebem.