Mecânica Pessoal
Travar a língua julgadora e gulosa e ir apertando a porca da paciência são duas manobras imprescindíveis para preservar a mecânica pessoal e evitar toques e choques desnecessários com os que vêm na sua mão e, ou em contramarcha.
O Bolo-Rei para a Vizinhança
Duas Sr.ªs de idade avançada sobem a rua a custo , apoiando-se mutuamente e detêm-se na frente da minúscula e tentadora montra da pequena e aromática pastelaria, atraídas por um colorido e mini bolo-rei .
O empregado, de sorriso franco e peito aberto a sobressair para além da camisa alva vem à porta, saúda-as e convida-as:
- Boa tarde, D. Vicência e D. Vitória, como está essa saudinha? Vai um bolinho-rei acabadinho de fazer com o tamanho talhado a pensar na vizinhança do bairro?
- Muito obrigada, Sr. Amável! – respondeu a Sr.ª de óculos com aros azuis e sorriso trémulo.
- Ora essa, D. Vitória! Querem entrar e descansar um pouco? – perguntou o Sr. Amável.
As Sr.ªs olharam uma para a outra e concordaram num aceno de cabeça.
- Aproveitamos, sim Sr.! Quanto custa o bolinho-rei? – inquiriu a D. Vicência.
- São dois euros e meio, mas não se preocupem com isso, porque hoje eu pago uma fatiazinha a cada uma das Sr.ªs, para provarem! Entrem lá, que está muito frio e não tarda nada começa a chover – insistiu o Sr. Amável.
- Obrigada Sr. Amável! O seu paizinho soube escolher-lhe o nome! Nós aceitamos e tomamos um chazinho de camomila – respondeu a D. Vitória.
- E podemos levar um bolinho para as duas, que o Sr. Amável fará o favor de cortar ao meio. Daqui a dias, quando recebermos a pensão, voltamos cá!
Na Paragem
Na paragem saem e entram pessoas apressadas no pássaro sem asas, presas aos passos dos percursos programados num plissado de pluralidade que: empurra, pisa e pode, porque paga, que o pobre popular pragueja, perseguindo a pontualidade de um precário posto de prata na peleja pedregosa deste pé-de-vento, impensado na pacata província.
Um Olhar sobre os Jerónimos
O meu olhar deslizante percorre os Jerónimos através dos vidros das janelas do eléctrico, para além das quais permanecem vivas:
- as idas à missa na minha infância com os padrinhos – do meus paizinho, e meus por afinidade, apesar do grau parental – e as minhas primas, suas filhas, todos tão altos e eu de palmo e meio, na minha magreza saltitante, imaginariamente favorecida pela magia principesca do meu saiote de tule branco, e pelas minhas escorregadias sandálias vermelhas, com a sensação de penetrar num palácio de gigantes, fascinada e apreensiva quando avistava alguma freira de verdade;
- os passeios domingueiros e fugidios, alguns mais tarde, com a minha prima mais nova para namorar com o jovem que viria a ser o seu esposo;
- a maravilhosa exploração deste mundo – o mosteiro e de toda a área circundante – de mão dada com os meus filhos de olhos e boca curiosos pintados de interminável alegria e gratidão;
- a comunhão de fé viva num evento ocorrido neste milénio.
A distância no tempo aumenta a importância destas experiências únicas, despidas de saudades, porque continuam intensamente vivas até ao infinito.
Pontes
Estrelas
A Cultura do Bem
O Perdão em Voz Alta
Coração Recheado
Coração doce, cântico de Amor.
Coração amargo, coleccionador de ressentimentos.
Coração alegre, distribuidor de sorrisos.
Coração triste, fonte de lágrimas.
Coração rico, céu de verdade.
Coração pobre, saco vazio.
Coração calmo, nascente de paz.
Coração exaltado, mar revoltado.
Coração duro, atirador de pedras.
Coração mole, barco ancorado.
Coração verdadeiro, voz de justiça.
Coração falso, raposa matreira.
Coração puro, suspiro de simplicidade.
Coração velhaco, copo partido
Coração adormecido, caminho errante.
Coração dinâmico, vida viva!







