Um Olhar sobre os Jerónimos

O meu olhar deslizante percorre os Jerónimos através dos vidros das janelas do eléctrico, para além das quais permanecem vivas:

- as idas à missa na minha infância com os padrinhos – do meus paizinho, e meus por afinidade, apesar do grau parental – e as minhas primas, suas filhas, todos tão altos e eu de palmo e meio, na minha magreza saltitante, imaginariamente favorecida pela magia principesca do meu saiote de tule branco, e pelas minhas escorregadias sandálias vermelhas, com a sensação de penetrar num palácio de gigantes, fascinada e apreensiva quando avistava alguma freira de verdade;

- os passeios domingueiros e fugidios, alguns mais tarde, com a minha prima mais nova para namorar com o jovem que viria a ser o seu esposo;

- a maravilhosa exploração deste mundo – o mosteiro e de toda a área circundante – de mão dada com os meus filhos de olhos e boca curiosos pintados de interminável alegria e gratidão;

- a comunhão de fé viva num evento ocorrido neste milénio.

A distância no tempo aumenta a importância destas experiências únicas, despidas de saudades, porque continuam intensamente vivas até ao infinito.

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