Vencer o Vento Varredor

O vento atrevido e enfurecido irrompe pelas frestas das janelas, assobiando persistentemente, num desafio indecifrável, imposto pela sua força arrepiante, que assusta a criança, arrebita as orelhas do cão, surpreende as plantas repousando nos vasos da sala.

Ignoro-o e ele insiste no seu grito, à espera da resposta no arrepio e no agasalho aconchegante que não visto.

Enfrento-o como nos dias de tempestade em que molhava o meu rosto com as lágrimas das ondas revoltadas, empurrava-me para me afastar da costa, que eu percorria, perseguindo a casca de noz que procurava um porto de abrigo longínquo, até perdê-la no horizonte, varria os meus pés com sopros gélidos da sua boca de gigante.

Prendo-o à minha volta, para que se esqueça de atirar poeira para os olhos das crianças, de tirar os chapéus aos idosos, de desequilibrar os ébrios, de arrancar os sacos do pão das mãos das mulheres, de arrefecer os colchões de pedra dos sem abrigo, de despir as árvores, de derrubar as flores, de estremecer os transportes, de baloiçar as embarcações…

Recordo-me da doçura das suas carícias no meu cabelo esvoaçante e nos sonhos que, em vaivém, levava e trazia nos papagaios de papel, que marcavam passos de dança aos meninos construtores de sorrisos e aventuras.

Agradeço-lhe a aprendizagem do manejo de armas que empunho, sem arrepios, nos dias de aparente calmaria em que os roncos das trovoadas socias surgem no meu caminho.

E vou embalá-lo até que adormeça!

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