Decorridas poucas horas, os passarinhos saudaram a aurora, o sol sorriu-lhe, as árvores espreguiçaram-se, as estrelas adormeceram, as crianças esfregaram os olhos, os pobres recolheram as mantas de cartão e a gaivota assobiou ao poeta.
Sentindo-se flutuar envolto num arco-íris estrelado e inspirando aromas embriagadores, o poeta alongou preguiçosamente o corpo, ergueu-se lentamente, ziguezagueou pelo quarto de mãos na cabeça, questionando-se:
“ – Sou eu? Estou sozinho em casa? Já acordei? Sonhei?!…”
Mas não encontrou respostas.
Aproximou-se da janela e vislumbrou a elevação de uma onda branca com traços de mulher, que lhe sorria; na areia, pegadas delicadas tinham escrito: “Bom dia!”
De olhos envernizado, o poeta pestanejou, incrédulo.
Os lábios da magnífica mulher desenhavam palavras indecifráveis no ar e a sua mão acenou-lhe.
Apercebendo-se de que retribuía a despedida, afastou-se da janela e justificou-se:
“- Coisas de poeta!”
(continua)
