Um dia, o barulho de uma mota interrompeu o sono do mar e das crianças do bairro e silenciou-se à nossa porta.
Alguém chamou pela minha mãe e no seu rosto avivou-se a alegria do reconhecimento de uma saudosa voz masculina.
- “Parece-me a voz do M(…), mas não pode ser!” – retorquiu como quem se cruza com um sonho.
Pousou a sua gigantesca e inseparável caneca de café sobre a mesa da cozinha e correu para a porta.
Lá fora, junto ao portão, dois rostos sorridentes esperavam-na. Um abraço uniu dois amigos-irmãos – decorridos anos, ele escolhera-a para o seu reencontro com o perfume marinho da sua terra e a força inalterável das suas raízes.
A esposa, de calça justa – peça de vestuário adequada ao meio de transporte que os trouxera até ao litoral alentejano, mas ainda invulgar na província – e de capacete na mão, sorria como uma criança num dia de festa.
Eu, pequena e magricela, olhava-os timidamente surpreendida – recordo-me do M(…) ter-me pegado ao colo e da ternura das mãos da B(…) sobre a minha cabeça.
Este dia marcaria um ciclo renovado de viagens, de crescimento de afectos, de encontros e de partilha, que os anos foram desenvolvendo e fortalecendo.
(continua)
