Naquele dia, o meu primo Raul foi à pesca com o pai – o saudoso e bondoso tio Francisco, que todos revêem neste filho.
Estava bom tempo e o mar calmo, mas o bote embateu numa pedra e voltou-se.
O meu primo usou os seus conhecimentos de nadador e conseguiu alcançar uma pedra donde pedia socorro quando avistava um barco.
O meu tio Francisco ficou enrolado nos aparelhos e não conseguiu soltar-se.
O Patrocínio, barco da pesca dos robalos, apercebeu-se do aflitivo pedido daquele menino e salvou-o, levando-o para terra.
Nunca esta família tinha sido atingida por tão grande golpe e jamais conhecera tamanha perda!
Durante onze dias, o meu avô contador de histórias esteve de atalaia, mudo, a olhar para o mar, à espera que ele lhe restituísse o filho querido que lhe roubara.
Ele conhecia a guerra: a morte, os feridos, a fome, a sede, o frio, o cansaço e a dor, vividos na solidão da sua família, dos seus amigos, da sua casa, do seu país; tinha-se despedido para sempre de entes queridos, mas o desaparecimento brutal e inesperado do seu menino-homem corroía-lhe todo o seu ser, profunda e silenciosamente – novo combate, mas sem sono, sem fome, sem sede.
(continua)
