O regresso a casa era marcado pela alegria, particularmente por mim, porque sabia que o galo grande e soberbo como um cão de guarda e feroz como um leão – “malino” -, não iria atirar-se à minha pessoa, como fazia com todas as crianças e alguns adultos, pois ia escoltada por todo o exército.
Recordo-me de que no dia em que o meu tio mais novo me disse, divertido, que o tinham morto, não acreditei, porque ele já me pregara partidas, referindo-me que a fera estava presa, tornando-me um alvo fácil para a sua agressividade, permitindo-lhe que me infligisse ferimentos, cujas cicatrizes perdi de vista das minha mãos com o decorrer dos anos. Naqueles momentos, recusava-me a transpor o portão, chamava pelos meus avós e ficava a chorar até que alguém de confiança viesse buscar-me, o meu avô – experimentaria sensações análogas, anos mais tarde, quando a Marília se divertia açulando-me o cão, impedindo-me de continuar o meu caminho para a escola.
As minhas tias mais novas esperavam-nos, sorridentes, deixando sobressair a sua beleza nas roupas simples e coloridas – anos mais tarde, seriam confeccionadas pala minha mãe. Ambas tinham tranças, iguais às das princesas que o meu avô descrevia nas suas intermináveis histórias, com as quais sonhava, mas que a minha mãezinha nunca me fez, receando que o meu paizinho se deixasse encantar por elas como o meu avô e não me permitisse cortar o cabelo – ela fora e continuaria a ser a mentora de inteligentes estratégias, para que as meninas da casa se livrassem das célebres tranças.
Depois de ter-se lavado e mudado de roupa, o meu avô sentava-me ao colo, inclinava o seu rosto e começava a contar-me histórias com entoações, ritmos e pausas próprias de um grande actor, enquanto a casa não era invadida pelo perfume dos deliciosos pratos da avó.
(continua)
