O rio da minha avó ficava num morro de frente para as Amarelas e a Terra Firme e tinha uma pequena caniçada que a protegia da ventania e dos espirros do mar quando estava alvoraçado, barreira tentadora para a minha curiosidade de espectadora dos pescadores, principalmente do meu avô e dos meus tios, que exibiam, satisfeitos, os peixes que iam apanhando, ao que eu assistia aplaudindo, de pé, encostada às canas, sabendo que não podia dar um “passo à gigante” em frente.
O meu avô contador de histórias despedia-se de mim, recomendava-me que ficasse sossegadinha, que ele já vinha, e afastava-se com as canas às costas – ele próprio as apanhara, limpara-as e preparara-as -, e uma alcofa na mão com umas ervas verde-escuras – marinhas, “erva da salema” -, que tinham uma “bolinhas”, que eu gostava de fazer estalar com os dedos num esforço atlético, e que os meus sábios pescadores punham no anzol como isco – primeiro pisavam as restantes farripas com pedras e atiravam-nas ao mar para engodarem as salemas, que gulosamente se atiravam às “bolinhas”.
(continua)
