Um dia, descobri que o meu avô tivera outra profissão, mas só tive o prazer de saber exactamente do que se tratava quando herdei alguns dos seus documentos pessoais, depois daquele doloroso e longínquo Março.
Este é o rosto do cartão sindical do avô contador de histórias em cujo verso pode ler-se numa perfeita caligrafia desenhada com aparo e tinta preta, quiça desbotada pelo tempo, o nome, a filiação – “Jacinto Maria e Maria *Joaquina” – , a naturalidade – “Sines” -, a categoria profissional – “Caldeireiro” -, a data de nascimento – revelá-la-ei brevemente -, a admissão – “10/8/1915″, a nacionalidade – “Portuguêsa” e no espaço destinado à assinatura do titular “não sabe assinar”.
Na página seguinte consta: CARTÂO SINDICAL e o n.º “290″, ao qual se segue uma fotografia, e a autenticação do precioso documento: as assinaturas do presidente e do secretário – no espaço dos Averbamentos nada consta.
Quem diria que em tempos tão longínquos havia tanto rigor?!…
* o nome verdadeiro era Maria Claudina.
(continua)
