Carta para o Simão (continuação)

S. Torpes, 26 de Setembro de 2008 (6h 11m)

Querido Simão,

A persistência tem sido a tua arma de vencedor! Com ela convenceste e venceste os preconceitos do Padre Zé, as vicissitudes dos teus pais, ultrapassaste a doença da tua mãe, perseguiste os teus sonhos, alcançaste as tuas metas.

Não acredites que não respondias aos pedidos de auxílio da tua mãe quando ela começou a vacilar, quando perdeu a esperança, quando se desencantou com a vida, quando, marinheira sem bússola do amor a navegar no mar bravo assolada por vendavais, apenas iluminada por uma estrelinha, tu, Simão, a quem ela queria oferecer o mundo sem o conseguir, perdeu o rumo e começou a naufragar, porque não é verdade!

A criança, o adolescente, o jovem, não podia compreender tudo e sofria impotente, enquanto assistia, desiludido e solitário, à descida da mãe na rampa da tristeza, da inércia, da doença, da desistência, do envelhecimento, da morte, e tu, Simão, nadavas, nadavas à procura de águas calmas, em busca do porto seguro.

O teu fiel amigo e protector, o teu irmão Rui, tinha razão quando te incentivava a falares com o vosso pai, mas tu ainda não estavas preparado; preferias admirá-lo, amá-lo às escondidas, até soltares a tua revolta.

Simão, quando o teu pai estava doente e recusaste vê-lo, imitaste-o nas atitudes negativas que ele teve ao longo da sua vida, e que tu reprovaste. Porque o magoaste tanto e à tua mãe?!… Porque espicaçaste o teu coração? Porquê?!… Seres católico não bastava para a caridade do teu perdão? Preferiste ser “culpado e pecador”?
Lembra-te de que Jesus disse: “O que fizerdes a um destes pequeninos, a mim o fazeis”, e os “pequeninos” não são só as crianças.

Cultiva o perdão no teu coração, querido Simão, e perdoa à tua mãe, ao teu pai, à vida. Solta as amarras e navega livre até ao vosso encontro no paraíso!

Assina a tua declaração de amor com a celebração de uma missa pelos teus pais, união adiada do seu amor perante Deus, que os abençoou com um filho extraordinário, e pede ao Pai a paz das suas almas. Fá-lo com a coragem e determinação que te distinguem, com o amor que é a tua marca, porque ele é a tua origem – Kiss them!

Quando partiste para Lisboa sabia que não irias voltar. Senti-o na primeira noite em que a Beatriz ficou sozinha, por ela, uma lânguida dor de despedida no peito, enquanto tu, cumprindo o teu destino voavas, e no ar ecoava a voz da D. Laura: “Só vives para os livros e para os filmes”…

Um beijo,
Maria

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