Era uma vez uns ténis a espreitar atrevidamente sob uma jovem batina.
Sorriram para uma senhora que lhes retribuiu o cumprimento, escrevendo-lhes uma mensagem com o olhar:
– Percorram todos os caminhos que o levem ao paraíso e afastem as pedras do seu caminho – obrigada!
Picaram os olhos a uma adolescente que lhes sorriu e exclamou:
– Fixe! Vão até à escola para a malta o conhecer, mas sem essa coisa branca vestida! Ia ser bué!
Deitaram a língua de fora a umas “tias conservadoras” que sussurravam entre si:
– Isto é uma pouca vergonha! Onde já se viu um padre com ténis?!…
Estenderam os cordões a uns senhores que comentavam:
– Sim, senhor! Isto é que é um mensageiro de Jesus! Tão jovem e conhecedor da dimensão humana e espiritual do homem no mundo, transportando a Palavra para a vida do dia-a-dia! Destes tijolos é que a igreja precisa para se renovar e crescer!
Apoiaram uma idosa que tropeçou numa folha e que se agarrou à batina, agradecendo graciosamente:
– Sr. Padre, essa espécie de alparcatas modernas são rijas, hem? Deus queira que lhe aliviem os pés e criem asas para chegar depressa onde a sua Fé o levar.
Aceitaram as carícias de uma menina, que os enfeitou com umas flores, pôs umas joaninhas na batina e perguntou ao jovem:
– Foi o Menino Jesus que te deu estes ténis? Pede-lhe uns iguais para mim e também para a Rosinha, porque os dela já estão rotos e quando chover ela fica com os pés molhados. Mas eu não gosto do teu vestido, porque não é bom para correr; podes tropeçar e cair.
O jovem inclinou-se, os ténis ficaram escondidos, a pensar como poderiam ajudá-lo a satisfazer o pedido da menina e também o desejo secreto do seu amigo de trabalhar no hospital, enquanto ele começou a falar com a criança…