Chamas-me e vou à janela…
Não te vejo, mas sinto o teu odor e ouço-te como um trovão e só depois um relâmpago ilumina a minha mente e ilustra a tua imagem: espumosa e borrifadora; forte e desafiadora; revoltada e entontecida.
Porque te atiras furioso contra a areia e a arrastas, impiedoso?
Porque bates nas rochas inertes, servis e contemplativas, ingrato?
Porque te espreguiças orgulhosa e desmedidamente e recomeças a luta que ninguém te pediu, provocador?
Porque assustas as famílias dos pescadores e os esbofeteias ou engoles quando, há pouco, lhes mostravas as tuas entranhas e lhes oferecias presentes cintilantes para os saciar, traidor?
Porque não te acalmas e beijas os pés das crianças, refrescas as mãos dos namorados, animas os tristes que buscam a tua força, alimentas gratuitamente quem tem fome, lavas docemente os rostos chorosos, vestes as praias de paz, acolhes quem te visita e me deixas sonhar que posso caminhar sobre as tuas águas serenas e conhecer o mundo com as carícias da tua brisa no meu corpo, com o teu sal nos meus lábios, com um bordão das tuas conchas e um colar das tuas finas e perfumadas algas, com uma pedra lascada e uma pena de gaivota para te compor hinos, meu amor?!…